Tenho andado mais leve, ou finjo bem,
porque essa agonia ainda me visita também...
Ela chega em silêncio, me prende, me cala,
me rouba as palavras, me corta a fala,
e, mesmo assim, eu continuo, porque não tenho escolha. ..
Não sei se fui perdoada.
De você, não veio nada.
Só a voz de um amigo, quase como um abrigo,
que viu meu peito em pedaços, aflito,
e foi até você por mim.
Você disse: “está tudo bem”.
Disse que podemos nos cumprimentar também,
dividir a mesa, fingir leveza,
mas o seu olhar te desmente com frieza...
Se isso é perdão, por que ainda pesa?
Será que me perdoou
ou só aprendeu a me evitar?
Porque, quando está por perto, eu desapareço,
me encolho, tremo, perco o endereço..
do meu próprio corpo, do meu próprio lugar.
Eu suo frio, travo, me desfaço.
Olho você de canto e me retraio.
Fujo dos horários, dos caminhos... de você;
saio antes, chego depois, só para não te ver.
É covardia ou é só dor tentando sobreviver?
Mas, estranhamente, eu tenho estado em paz.
Uma paz frágil, que vem e se desfaz.
Como se eu estivesse voltando a respirar,
a ser quem eu era antes de essa dor me atravessar...
A alegria volta, tímida, sem aviso,
quase pedindo licença para existir no meu sorriso.
Ou talvez seja só uma pausa da dor,
um intervalo curto antes de tudo desmoronar de novo.
E, mesmo assim, eu me alegro
por ainda poder enxergar você de longe, em segredo.
Porque aquela sensação ainda mora em mim,
a mesma de antes, quando eu queria você assim,
quieta, escondida, mas inteira no sentir.
Eu queria coragem,
coragem para olhar nos seus olhos e não fugir,
para dizer “oi” sem a voz sumir,
para brincar, sorrir, existir perto de você.
Mas eu tenho medo,
medo de que o seu desprezo me desfaça.
Mande-me um sinal, qualquer coisa,
porque eu ainda lembro do seu beijo, e isso ecoa.
Ainda sinto o gosto, o peso, o desejo,
como se o tempo não tivesse levado esse trecho.
Você ainda lembra
ou fui só mais um momento que passou?
Porque eu lembro de tudo,
do seu abraço,
do seu cuidado, tão puro,
do seu olhar, que me desmontava sem esforço nenhum.
Ah, como era bom.
E como ainda dói ser bom assim.
Mas, ainda assim,
é bonito lembrar.
Não sei se foi destino
ou só um encontro perdido no caminho,
mas você me curou, mesmo que depois eu tenha passado dor ...
E o que ficou
não foi só dor.
Foi carinho...
Um carinho profundo, silencioso, escondido,
guardado onde ninguém toca, ninguém vê, ninguém tira,
na alma, no corpo
e em tudo que ainda insiste em ser você dentro de mim..
E eu ainda imagino como teria sido se eu tivesse te conhecido
Bem antes assim.