Oswaldo Jesus Motta

O que não digo

Não te digo o nome.

Mas sei:

sentas nos cantos da tarde

como poeira que a luz revela.

Chegas sem ruído,

ocupas o que não vigio —

um intervalo entre duas lembranças,

a pausa antes da palavra.

Hoje, não.

Abro as janelas do corpo,

deixo entrar o que vive:

o riso esquecido nas mãos,

o calor antigo dos abraços,

vozes que ainda respiram

no fundo do tempo.

Leva contigo

esse frio de fim,

essa promessa estreita

de que tudo se apaga.

Fica-me o instante —

inteiro, indomável —

ardendo baixo

como lume que persiste.

E se um dia voltares,

que me encontres assim:

habitado em brasas.