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carta2

Escrevo às 21h39. Não sei se a hora importa — mas, de algum modo, importa. Talvez porque me prenda a algo exato enquanto tudo em mim é tão impreciso. Descobri que há pessoas em Portugal que me leem. Isso me parece estranho e bonito ao mesmo tempo. Como se eu existisse um pouco fora de mim.

 

A carta de hoje me expõe. E eu quase não a escrevo por isso. Há uma espécie de pudor em se mostrar por dentro — como se o dentro fosse sempre desorganizado demais para ser visto. Ainda assim, talvez escrever seja justamente isso: encostar no que dói e não recuar.

 

Faz dias que não escrevo. Nem com caneta, nem comigo. Meu caderno ficou fechado, como se também tivesse desistido de mim. Hoje, no entanto, escrevi do hospital. Nada grave — uma palavra difícil, “endometrionítica”, que quase parece maior do que a própria dor. Eu estava bem. Estranhamente bem. Inspirada, até. O ambiente não ajudava, as pessoas não ajudavam — mas havia algo em mim que insistia em viver aquele momento como se fosse importante. Talvez fosse.

Agora estou em casa. E rasguei a página que escrevi. Rasguei sem entender — ou entendendo demais. Foi insegurança. Foi medo de me ver ali, tão clara.

Tenho estado insegura. Mas não é uma insegurança simples — é uma espécie de desconfiança de mim mesma. Como se eu me observasse de fora e não aprovasse o que vejo. Tenho gostado menos de mim. E isso me assusta um pouco, porque antes eu me era suficiente — ou ao menos eu acreditava ser.

Há uma vontade de chorar que não pede licença. E, junto com ela, um hábito cansado de me comparar. As pessoas parecem prontas. Inteiras. Sabem existir. E eu… eu me pergunto o que ofereço.

Tenho um rosto que às vezes me agrada, às vezes não. Um corpo que parece certo, mas nunca completo. Sempre falta alguma coisa — e esse “alguma coisa” me persegue como se tivesse nome, mas não tem. Tentei melhorar. Me depilei. Gosto da sensação de pele limpa, quase nova. Mas é curioso: nos outros, os pelos são bonitos. Neles, tudo parece fazer sentido. Em mim, há sempre um pequeno desencontro.

Tenho implicado com meu cabelo. Com meu sorriso. Meu próprio sorriso me parece estranho — e isso é quase absurdo. Mas eu sinto. E sentir, às vezes, não precisa fazer sentido.

Sei que sou bonita. Sei. Mas isso não me basta. Eu queria me sentir linda. Não para os outros — ou talvez também — mas principalmente para mim. Nas fotos, às vezes, consigo. Há instantes em que me vejo e penso: sou eu. E gosto. Mas passa rápido. Como se aquela versão não soubesse permanecer.

Minha namorada é linda com uma facilidade que me desconcerta. Eu a elogio o tempo todo. É uma necessidade quase física de dizer. E me pergunto se ela entende — se ela se enxerga com a mesma intensidade com que eu a enxergo.

Queria acreditar mais em mim. Me tratar com uma delicadeza que eu reservo tão facilmente aos outros. Mas comigo, não. Comigo, há sempre cobrança.

Tenho estranhado minha própria voz. Como se ela não me pertencesse completamente. Como se eu estivesse um pouco fora do lugar dentro de mim.

E me pergunto, em silêncio: as pessoas gostam de mim? Gostam mesmo? Ou apenas me suportam com cuidado? Quando dizem que não incomodo, é verdade? Ou é gentileza?

Eu aceitaria saber. Acho.

Penso demais em mim — e isso cansa. Perguntas que voltam, sempre: estou sendo suficiente? Estou sendo boa? Sou bonita o bastante? Por que não acredito em mim? Por que essa tristeza leve, mas constante?

Às vezes penso que deveria falar menos. Que meu silêncio seria mais agradável do que minhas palavras.

Mas meu pai diz que gosta de me ouvir. Minha namorada diz que me ouviria por horas. Meus amigos dizem que meu jeito é bonito. E eu não sei o que fazer com isso. Porque, mesmo assim, ainda me estranho.

E, no entanto, há algo em mim que insiste. Uma luz — pequena, mas teimosa.

Mas sempre há um “mas”.

E esse “mas” me interrompe. Me corta. Me impede de continuar sendo sem pensar.

Queria voltar a ser criança. Não pela ausência de dor, mas pela ausência de dúvida. Eu acreditava em mim com uma naturalidade que hoje me parece quase impossível. Meu sorriso não precisava ser pensado. Ele apenas existia.

“Esperança”, ela me disse. “Elpie.”

Disse que eu seria isso, se fosse uma palavra.

E eu fiquei pensando — o que ela viu? Onde está essa esperança em mim?

Talvez eu tenha me perdido de mim tentando me encontrar nos outros. Talvez eu esteja me olhando com olhos que não são meus. Talvez eu esteja exigindo de mim algo que nunca me foi pedido.

E talvez — só talvez — eu já seja o suficiente antes mesmo de tentar ser mais.

Sentir demais me assusta. Mas talvez seja isso que me mantém viva de um jeito mais inteiro. Há algo de verdadeiro em não caber perfeitamente.

A criança que fui talvez ainda esteja aqui. Não desapareceu — apenas ficou mais silenciosa. Esperando que eu volte a escutá-la.

Se eu sou “Elpie”, então há algo em mim que não desistiu. Algo que continua — mesmo quando eu paro.

E isso, talvez, seja o começo.

Não de uma resposta — mas de uma aceitação.

Hoje, não quero me prometer mudanças grandiosas. Quero apenas tentar ser um pouco mais gentil comigo. Um pouco mais paciente com o que ainda não entendo.

Aceitar que estou em processo. Que não estou pronta — e talvez nunca esteja.

E que há uma beleza estranha, quase invisível, em simplesmente continuar.

Se existe uma luz em mim — e eu acredito que exista — que eu não a apague por não reconhecê-la.

Talvez ela só precise de tempo para ser vista. No entanto, estou cansada de ser eu. Contudo, já que sou, o jeito é ser.

 

— eu.