Naiumi Rodrigues

A Arte Nem Sempre é Linda

A arte nem sempre é linda

Às vezes nasce ferida

É um grito preso na garganta

Tentando provar que ainda existe vida

 

Queria saber desenhar rostos perfeitos

Linhas suaves, beleza sem dor

Mas os rostos que nascem da minha mão

Carregam a verdade:

Olhos cansados, silêncio e horror

 

Talvez a beleza esteja nisso 

Na dor que insiste em falar

Na expressão torta de quem vive

Mesmo quando só quer parar

 

Rezo a Deus em noites vazias

Sussurros que o teto ouviu:

 

“Se um dia quiser me levar,

talvez eu já esteja pronta,

talvez eu já tenha desistido de existir no mundo que me feriu.”

 

Mas me pergunto:

Será errado dizer?

Não romantizo a queda 

Só estou tentando sobreviver.

 

Estou cansada, tão cansada

Com pensamentos como lâminas na mão

Mas ainda estou aqui contando a história

Como quem deixa acesa

Uma última vela na escuridão

 

Hoje, a hora eu nem sei 

A solidão me encontrou primeiro

E no silêncio da casa vazia

A vontade de morrer

Sentou ao meu lado no banheiro

 

Pensei na água da banheira

Naquelas cenas frias de filme antigo

Onde a dor vira silêncio

E ninguém pergunta mais nada comigo

 

Quis chorar

Ou talvez não quis

Às vezes nem sei o que sinto

Só sei que a mente faz labirintos

Onde me perco dentro de mim

 

Mas então um piano tocou 

Notas lentas, quase oração

E por um instante a morte

Perdeu espaço

Para a criação

 

Escrevi

Desenhei

Respirei o ar pesado do meu próprio pensamento

 

E percebi algo estranho

Quase um pequeno entendimento:

 

Cada pessoa carrega um mundo

Uma mente inteira pra sustentar

E ninguém além de quem sente

Sabe exatamente

O peso de continuar.

 

Hoje eu quis morrer

Sim, isso é verdade

Mas também escrevi essas palavras

Como quem deixa marcas na realidade

 

Porque quem sente 

É a gente

 

E isso

Nem a dor

Nem o mundo

Nem o silêncio

 

Podem tirar.

 

— Naiumi

São Paulo, 15 de março de 2026

 

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