Freddie Seixas

Prazer

Há um fogo antigo queimando no peito do homem, um chamado invisível que o arrasta por geraçõe, ora suave como o toque de um afago, ora brutal como a fome que dilacera.
Chamam-no prazer.
E ele se disfarça de muitas formas:
no corpo que deseja outro corpo, no pão quente que consola a carne,
no riso compartilhado sob luzes passageiras, no abraço que promete eternidade…
mesmo sabendo que o tempo é traidor.
Ah, como é doce se perder…
Mas há um preço, sempre há.
Porque o prazer, quando entronizado,
não pede licença, ele governa e impera.
E o homem, que nasceu para ser rei de si,
ajoelha-se… sem perceber.
Torna-se servo do instante.
Escravo do sentir.
Refém do agora.
E então a alma, outrora altiva, começa a se dissipar em migalhas de satisfação breve e passageira, como vinho derramado em terra seca, que nunca sacia, nunca permanece.
Mas há aqueles…
raros, silenciosos, quase invisíveis…
que ousam olhar o prazer nos olhos
e dizer: “Não és meu senhor.”
Esses caminham sobre lâminas.
Sentem, mas não se entregam.
Desejam, mas não se perdem.
Vivem, mas não se vendem.
Transformam o prazer em chama, não em incêndio.
E quando buscam o divino…
ah, quando buscam…
já não é pelo êxtase que passa, nem pelo arrepio que seduz.
É pela presença.
Uma presença que não grita, não seduz,
não implora, mas permanece.
E nesse encontro, onde o silêncio fala mais alto que o desejo, o homem enfim compreende, não foi feito para negar o prazer…
mas para não se curvar a ele.
Pois aquele que domina seus impulsos
ergue impérios invisíveis.
E aquele que se perde neles…
mal governa a si mesmo.
Que o prazer venhq, mas que te encontre de pé.
Inteiro.
Lúcido.
Indomável.
Como um lobo que sente o cheiro da carne…
mas escolhe quando caçar.

 

Por Freddie Seixas.