Francisco Ribeiro

Meia garrafa…

Não sei se por dos copos que bebi –

das minhas dores já me esqueci –

penso em ti e não me dói.

 

Uva, medronho, zimbro e cevada –

na minha boca tudo e nada –

e o fígado que me perdoe.

 

Bebo hoje como sempre,

Vinho, whiskey e aguardente –

muitos maltes e licores…

 

Em copos, taças e garrafas –

que para uns são desgraças –

que são para mim…

remédio para as dores.

 

Se no olhar me vir um brilho –

não estou a seduzi-lo –

é o álcool a destilar;

que sobe por mim acima –

e nos olhos me faz esta rima

que já nem sabia como rimar…

 

Se tenho a língua enrolada –

se falo muito e não digo nada –

não estou a falar para si,

esta linguagem é para quem beba,

e é natural que não perceba –

que até eu já me perdi…

 

Se vou por aí ziguezagueando,

não se preocupe estou treinando,

para fugir da vassoura.

Que quando me vê entrar assim,

corre atrás de mim –

nas mãos da minha senhora…

 

E agora não caí, estou deitado –

por certo emborrachado –

não me mexam por favor;

não quero ambulância com sirene –

nem me chamem o INEM

que eu ‘tou sonhando c’o meu amor…

 

Que com vassoura ou sem vassoura,

não troco a minha senhora

por qualquer outra que seja.

Entornado ou por entornar,

é nela sempre que estou a pensar

beba sumo vinho ou cerveja.

 

E não estou doente não senhor –

não tenho nenhuma dor –

nem estou a gritar, canto o fado;

que também da vida não me queixo,

e não pense já que é por desleixo –

eu é que não estou para aí virado.

 

Queixar-se da vida parece bem,

a quem julga que muito –

ou nada tem –

mas todos sempre temos

qualquer coisita…

 

Sei que o ar que respiramos é uma merda,

a água qualquer dia só em conserva –

cá eu, já me virei para a pinguita…

 

Mas como ia dizendo,

todos nós lá vamos tendo

qualquer coisa nesta vida.

E se ninguém, nada tem,

quem tudo tenha não há quem,

pois que de certo…

 

Só a morte logo à partida.