Viviane.93

A cor do erro

Escuto desde pequena
o mesmo conselho repetido:
estude.
seja alguém.
como se o esforço
blindasse a pele.
como se diploma
desviasse bala.

Meu país não esqueceu 
apenas mudou a forma
de apagar nomes.
Meus ancestrais foram números,
corpos sem resposta.
e nós seguimos
herdando a conta.

Você entrega a vida à arte
e recebe oitenta tiros.
OITENTA 
depois dizem: engano.
(era suspeito)

Você veste o jaleco,
carrega anos nos ombros,
e mesmo assim
cabe na mira.

Você espera alguém
numa noite qualquer,
um guarda-chuva na mão 
e ele vira fuzil
no olhar de quem atira.

Sempre há uma versão
que justifica o disparo.
Sempre há um erro
conveniente demais.
mas o corpo
nunca erra a cor.