Francisco Queiroz
O vagante
Andar sem destino, apenas instinto
catando sombras e latas;
colhendo sentidos, todos, até o da fome
ouvindo os murmúrios dos passantes.
O banco de concreto, frio ou quente,
abriga o corpo, sem preferências;
a fadiga faz dos braços travesseiro.
Ser camuflado, quase sempre,
paisagem que, quando se revela,
vai da náusea à piedade:
um espelho empoeirado.
O vagante, como se proclama,
diz ter fugido do cálculo,
de qualquer engenharia.
O sorriso vem fácil
sem qualquer embriaguez.
Lúcido de sua condição,
diz não haver culpados.
De mãos anônimas recebe
e agradece o pão, a sopa;
a fome se vai em silêncio.
Segue sem mal algum,
em suas vestes não tem bolsos;
apenas um pequeno bilhete no boné,
de saudade e incompreensão...