Sinvaldo de Souza Gino

A dor da fome

 

A dor da fome

Ventre que gorda, alma que seca,
Grasna o rico, o pobre apanha e chora,
Fame é fera que rasga e enfeitiça,
E a mesa do rico é abismo que devora.
O pão é miragem, a água é areia,
A vida é fio que se desfibra, se some,
E a fome é gualdrapa que não larga, não some,
É grito mudo, é lágrima que queima,
É sombra que segue, é peso que esmaga,
É a marca do esquecido, do que ninguém reclama,
Do que ninguém vê, do que ninguém fala,
A fome é a dor que corrói, que não cessa,
É o vazio que não se preenche, não se sara,
É a sede que não se mata, é a vida que se arranca,
É o gosto amargo do nada, é a escuridão,
É a noite sem fim, é o silêncio que dói,
É a fome que gorda, é a alma que some,
É a dor que resta, é a única verdade!