Brendon Leão

ADEGAS DO MEU JARDIM

Não pesa o tempo, pesa a lembrança,

dos pátios cheios de sol e alegria.

A vida passa, mas nunca alcança

o menino antigo que já viveu um dia.

 

E se hoje o espelho mostra caminhos

que o sonho jovem não previu,

ainda guardamos, em silêncios mansinhos,

o mesmo céu que a juventude viu.

 

Sou o mesmo de antes, só mudei de estação,
o tempo passou, mas guardou meu coração.
Nos olhos ainda mora o brilho de outrora,
aquele rapaz que o mundo chamava lá fora,
vive em mim, mesmo que o espelho diga agora.

 

O tempo caminha em silêncio e cansaço,
aprofundando memórias em cada pedaço.
O ontem vira oceano dentro do peito,
enquanto o amanhã, cada vez mais estreito,
é só um raso horizonte depois do abraço.

 

A vela inclina a chama no ar quase frio,

O bolo repousa quieto, guardando o sabor;

Pelas paredes passa um silêncio tardio,

Como quem traz nas mãos um resto de amor.

 

Conversar contigo é abrir o baú da memória,
onde o tempo ainda sussurra antiga história.
Por instantes o agora perde o seu peso,
e o coração respira num breve sossego,
como se o passado viesse nos dar vitória.

 

Às vezes a estrada se alonga em solidão,
porque poucos decifram um verso do coração.
O poeta caminha onde o silêncio floresce,
diz o que a alma sente e o mundo esquece,
e segue só, mas cheio de imensidão.

 

No dia em que o tempo sopra mais um ano em mim,
ergo a taça em silêncio, sem festa nem clarim.
O brinde não é riso, nem canção em encanto,
é feito do vinho quieto do meu pranto,
que amadureceu nas adegas do meu jardim.