Arthur Santos

127 - DIÁLOGO ENTRE O POETA E A SUA MUSA

DIÁLOGO ENTRE O POETA E A SUA MUSA

(O poeta recuou uns séculos para se encontrar com a sua musa e ter uma conversa com ela sobre o amor. Ao que parece não se entenderam mas fica aqui o registo da conversa)

 

- olá musa!

- olá poeta!

- musa, quero falar contigo

sobre amor, paixão e desejo.

- sim já percebi ao que vindes,

sinto na tua poesia

que estamos em desacordo.

 

diz o poeta:
falais do desejo
que o homem sente,
bela e pura donzela?
e falais desse desejo
como sendo um atributo
que julgais bruto
e desprovido de paixão?
mas porventura
haveis pensado
bem no que é desejo?
deveis estar enganada,
porque acreditai,
nenhum homem sentirá desejo
sem ser assaltado
por uma arrebatadora paixão!
por isso nunca vos atreveis a duvidar,
se um homem por vós sentir desejo

não é sentimento superficial
não é apenas desejo carnal
é porque vos ama

e vos quer conquistar!

diz a musa ao poeta:
é grande, enorme, 
e abissal diferença.
a forma de pensar
das mulheres
e a forma de pensar
dos homens!
vocês homens
só amam quando desejam,
só se interessam se sentirem desejo
só pensam com desejo!
aí vai a resposta:
arrebatadora paixão? onde?
depois de arrefecido o desejo,
depois de conquistada a coisa pretendida,
vão correndo, procurando a saída,
dizendo que não dá mais, acabou!
invoca-se tanta razão e sem nenhuma,
deixa-se de parte quem se seduziu,
a paixão fica reduzida a espuma
e logo para outra caça ruma.
sentir por mim esse desejo? não quero!
não é esse o acto de amor
que busco e em mim venero.
o amor é sublime sentimento e espero
pelo momento de o entregar singelo
com ou sem desejo mas amor, não gelo!

diz o poeta:
pois senhora minha
tenho pena que assim penseis.
mas não receeis,
eu explico ao que venho,
pois não tenho
medos nem receios,
nem me farto
de insultos ao desbarato!
e pasmo! pasmo mesmo
que uma donzela pura e bela,
fale com tal sarcasmo,
sem confirmar o que diz,

recusando ser feliz.
eu falo-vos de entusiasmo
e não de simples interesse,
quando vos falo de desejo.
eu falo-vos de paixão,
e do mais puro amor.
quando vos falo de desejo,
eu falo-vos de dedicação
e do mais fino carinho.
quando vos falo de desejo.
tanto que falta a uma donzela
mesmo bela, como vós sois,
para compreender o amor a dois.

diz a musa ao poeta:
pois meu senhor vos direi,
já que nada temo
que do amor o demo
muito fala e muito mente.
se o insulto sente,
se assim entende,
lá no fundo prende
penas de pesar.
quem serei eu
para o negar?
donzela não sou
e esse tipo de dedicação,
há muito confirmei,

não é amor nem paixão,
por isso o afirmo
e falo do que sei!
fala de paixão?
do mais puro amor?
esse meu senhor
contém não apenas desejo,
mas carinho e compreensão!
que sabeis pois vós,
do amor a dois?
todo o que buscais
é apenas prazer,
mas que estou aqui
eu a lhe dizer?
nunca do amor
podereis entender,
a menos que tivésseis
nascido mulher!

diz o poeta:
acreditai que sentido
e também muito divertido
vos direi a sorrir
que enquanto assim pensardes
nunca o amor hás-de sentir!

diz a musa ao poeta:
quem lhe disse a si,
mesmo que a sorrir
que ao pensar assim,
o amor em mim
nunca o senti?
engano o seu!
o amor em mim
há muito nasceu!
amor verdadeiro,
mais puro e sincero
que o amor efémero
que para vós buscais!
isso que quereis não é amor,

é apenas o prazer dum beijo,
é alívio para o vosso desejo!

diz o poeta:
há um livro de sinónimos na corte,
podeis consultá-lo por vossa sorte!
ide depressa que aflição,
não sabeis o que quer dizer desejo!

diz a musa ao poeta:
sabereis melhor
o que quer dizer
disso meu senhor
sois vós todo saber!

diz o poeta:
sabeis que está boa esta conversa?
mas nunca chegaremos a acordo,
estaremos sempre em desacordo
e a conclusão é perversa.

diz a musa ao poeta:
é fácil senhor,
de saber a conclusão,
basta pensar no que disse,
tem tudo na sua mão.
não vai pedir-me por certo
que lhe ensine a lição,
eu na minha meninice,
a doutor assim tão esperto?

diz o poeta:
pois... então já somos dois
nesta conversa para mim tão confusa
mas abdico, não quero ferir a minha musa.

diz a musa ao poeta:
ahahahaha...
então, desiste dos jogos florais?

diz o poeta:
claro que não desisto
mas acho que está bem assim como final,
até porque estamos quase no natal
e eu não quero assistir ao meu funeral.
não te quero como intrusa.
até sempre bela musa.

diz a musa ao poeta:
até sempre meu poeta!