Francisco Queiroz

Panos e Danos

É preciso, tenho que habitar o mundo.

Me trancaram no quarto aos fundos.

De lá vejo a luz de um sol multicolorido,

e todos os dias são esticados, doloridos...

 

Do vitral o mundo é disforme:

há corvos, carros, nada é uniforme.

Sair? Difícil! Paredes me mantêm.

A liberdade vem sempre com um porém...

 

É preciso, tenho que habitar o mundo.

Mas, pensando bem:

 

Estou nu! Todos estão.

A fantasia são os panos!

Deuses! Quantos danos...

 

O mundo quer os fantasiados.

Então, nu, jamais poderei habitá-lo...

Devo me vestir, onde estão os trapos?

 

A realidade é buraco profundo,

e eu, e eu, e eu, sou o eco aos fundos...

Espreitando a luz pelas frestas do mundo.