Chegou numa tarde morna,
quando o sol descansava preguiçoso no quintal
e a vida parecia apenas
uma sucessão de dias iguais.
Era pequeno,
com olhos que carregavam um brilho antigo,
como se soubesse segredos
que os homens esquecem ao crescer.
No começo eu apenas o alimentava,
abria a porta,
jogava uma bola no chão de terra
e voltava às minhas preocupações de gente grande.
Mas ele não.
Ele corria como quem celebra o vento,
latia para as folhas que caíam
como se cada uma fosse
um acontecimento extraordinário.
E quando eu chegava cansado da vida,
com o peso do mundo nas costas,
ele me recebia
como se o universo inteiro tivesse voltado para casa.
Foi assim,
sem discurso algum,
sem livros ou conselhos,
que comecei a entender certas coisas.
Aprendi que o tempo cabe
dentro de um simples passeio ao entardecer.
Que dividir um pedaço de pão
pode ter o sabor de festa.
Que um silêncio ao lado de quem amamos
vale mais que mil explicações.
Os anos, porém,
correm mais depressa para alguns.
Um dia o quintal ficou quieto demais.
A bola permaneceu parada
onde antes girava alegre na poeira.
E o vento passou devagar
como quem respeita uma despedida.
Fiquei ali, sentado no mesmo degrau,
sentindo uma saudade que respirava comigo.
Foi então que percebi
que ele não havia apenas vivido ao meu lado.
Ele havia me ensinado
a enxergar o milagre escondido
nos pequenos dias.
E enquanto o céu escurecia,
agradeci em silêncio.
Porque alguns mestres
não falam.
Apenas caminham conosco por um tempo —
e deixam, nas pegadas,
um jeito novo de viver.