Te escrevo, Marina, meu amor,
como quem acende uma luz pequena
num quarto que aprendeu a ser noite
sem reclamar do escuro.
Te escrevo porque o dia, às vezes,
me chega com as mãos vazias
e é teu nome que vira alimento,
pão quente no centro da mesa,
água limpa no fundo da garganta.
Marina,
há um jeito teu de existir
que reorganiza a bagunça do meu mundo.
Como se a vida, distraída,
lembrasse de repente
onde guardou a esperança.
Quando eu digo “meu amor”,
não é posse, é abrigo.
É o lugar onde eu descanso a pressa.
É o direito de respirar fundo
sem me justificar.
Eu te encontrei em detalhes:
na curva calma de uma conversa,
num riso que não precisava provar nada,
num silêncio que não era castigo,
mas casa.
E desde então, cada coisa simples
ficou mais séria,
como se a simplicidade
tivesse ganhado um coração.
Às vezes eu penso
que a gente é feito de pequenos retornos:
voltar pra perto,
voltar pra dentro,
voltar praquilo que importa
sem alarde.
E tu és isso:
um retorno bom.
Marina, meu amor,
eu te vejo quando ninguém está vendo:
na tua coragem quieta,
na tua forma de aguentar o dia
sem perder a delicadeza,
na tua fome de futuro,
no teu cuidado com as coisas, com todos, inclusive comigo.
Eu, que já fui tempestade por dentro,
aprendi contigo
que o amor não precisa gritar
pra ser verdadeiro.
Ele pode ser um gesto.
Um “vem cá”.
Um “fica mais um pouco”.
Um olhar que diz
“eu te entendo”
antes mesmo de eu me explicar.
E se eu falho,
porque eu falho,
se eu fecho portas por medo,
se eu atraso o afeto,
se eu deixo a ternura esperando na fila,
peço que me perdoes
com a tua humanidade inteira.
Não com perfeição.
Eu não quero um amor impecável:
eu quero um amor vivo.
Daqueles que consertam a rota
sem quebrar o barco.
Marina,
há dias em que o mundo pesa
como mochila de pedra.
Nesses dias, eu queria
ser o lugar em que tu largasses o peso
sem sentir culpa.
Ser teu banco de praça,
teu copo de água,
teu “não precisa correr”.
Eu queria te lembrar
que tu não deves nada ao relógio
quando a tua alma pede descanso.
Porque eu te amo
na parte luminosa e na parte cansada.
Te amo no riso e no soluço.
Te amo até quando tu duvidas de ti,
porque eu enxergo além da dúvida:
enxergo a pessoa inteira
tentando, tentando, tentando
e isso é tão bonito
que me desmonta.
Eu te amo com planos, sim,
mas te amo também sem agenda:
no improviso de uma tarde comum,
na bagunça de uma cozinha depois do almoço,
no jeito que a tua presença
muda a temperatura da casa.
Tu entras
e o ar fica mais respirável.
Marina, meu amor,
se um dia o tempo tentar te convencer
de que o que a gente tem é pouco,
lembra:
o pouco que é verdadeiro
vale mais do que o muito que é vazio.
E o nosso amor tem substância.
Dá pra segurar.
Dá pra atravessar a rua.
Dá pra enfrentar o inverno.
Eu quero construir contigo
uma intimidade que não seja prisão,
mas janela.
Um amor que não diminua ninguém,
que não controle,
que não vigie,
que não sufoque.
Um amor que aprenda a confiar
como quem aprende uma língua nova:
errando, rindo, repetindo,
até virar natural.
Eu quero que a gente seja
refúgio e aventura.
Que a gente tenha paz,
mas também tenha riso alto,
música no meio do dia,
e aquela coragem boba
de dançar na sala
sem motivo nenhum,
só porque estar vivo, ao teu lado,
já é motivo.
Eu prometo te cuidar
do jeito possível,
do jeito humano:
com presença,
com honestidade,
com esforço,
com escuta.
Prometo não te amar pela metade,
não te amar só quando é fácil,
não te amar só quando a vida está bonita.
E quando eu não souber amar,
porque ninguém sabe sempre,
eu vou perguntar.
Vou aprender.
Vou desaprender aquilo que machuca.
Vou escolher, de novo,
ser alguém que soma.
Marina,
se eu pudesse te dar um presente
que não coubesse em caixa,
eu te daria tempo.
Tempo de qualidade.
Tempo de verdade.
Tempo sem distração.
Eu te daria a sensação
de que tu não precisas disputar espaço
com o resto do mundo
quando estás comigo.
E se eu pudesse te dar um lugar,
eu te daria um lugar dentro da minha calma,
pra quando tu quiseres descansar
do lado de dentro do peito.
Porque, sim, eu tenho um peito
que se acalma
quando te encontra.
À noite, quando tudo silencia,
eu penso na palavra “Marina”
como quem pensa em mar
sem medo de se afogar.
Porque teu nome tem água,
mas também tem margem.
Tem profundidade,
mas também tem porto.
E eu quero ser teu porto também:
não pra te prender,
mas pra te receber.
Pra ser onde tu encostas
quando a vida fica grande demais.
Meu amor, Marina,
se o futuro vier com seus sustos,
a gente segura junto.
Se vier com suas maravilhas,
a gente celebra junto.
Se vier com dias comuns,
a gente vive junto
porque o comum contigo
tem brilho de coisa rara.
Eu não sei medir amor em frases,
mas sei reconhecer
o que me faz melhor.
E tu me fazes melhor
sem me exigir perfeição,
sem me dobrar,
sem me diminuir.
Tu me ergues
só por existires perto.
Por isso eu te escrevo este poema,
como quem estende um cobertor
sobre o que importa,
pra proteger do frio do mundo.
E termino sem terminar,
porque amar é assim:
uma frase que continua
mesmo quando a gente cala.
Marina, meu amor,
fica.
Fica no meu dia,
fica no meu “bom dia”,
fica no meu “volta logo”,
fica no meu “tô aqui”.
Fica na minha vida
como quem não pede licença
porque já é casa.
E se um dia tu esqueceres
o quanto és amada,
volta aqui
e lê de novo:
eu te amo.
Com o que eu sei,
com o que eu aprendo,
com o que eu sou.
E com tudo o que eu ainda vou ser
ao teu lado.