A chaleira canta primeiro
antes mesmo do sol
como se dissesse:
acorda, a vida já começou de novo.
Na pia
os copos da noite passada
esperam em silêncio
como quem sabe
que ninguém aqui precisa ter pressa
para existir.
Eu gosto desse momento
em que a casa ainda boceja.
A mesa —
um território pequeno
onde duas xícaras de café
fazem mais barulho no coração
do que qualquer avenida da cidade.
Lá fora
ônibus passam carregando histórias
gente com pressa
sem saber
que também estão participando
de um milagre discreto.
Porque viver, às vezes,
é só isso:
o pão sendo dividido
o riso que escapa no meio da conversa
o jeito como alguém pergunta
se você dormiu bem.
E eu penso
enquanto a manteiga derrete devagar:
que o amor não mora
nos grandes anúncios da vida.
Ele prefere lugares modestos —
a toalha manchada de café
o ventilador girando paciente
a cadeira puxada para mais perto.
Talvez seja por isso
que o coração se acalma
quando alguém fica.
Não para salvar o mundo.
Não para dizer algo extraordinário.
Só para compartilhar
o mesmo prato
o mesmo silêncio
o mesmo dia comum
que, de tão simples,
acaba brilhando.