Sezar Kosta

ONDE MORA O AMOR

A chaleira canta primeiro

antes mesmo do sol

como se dissesse:

acorda, a vida já começou de novo.

 

Na pia

os copos da noite passada

esperam em silêncio

como quem sabe

que ninguém aqui precisa ter pressa

para existir.

 

Eu gosto desse momento

em que a casa ainda boceja.

 

A mesa —

um território pequeno

onde duas xícaras de café

fazem mais barulho no coração

do que qualquer avenida da cidade.

 

Lá fora

ônibus passam carregando histórias

gente com pressa

sem saber

que também estão participando

de um milagre discreto.

 

Porque viver, às vezes,

é só isso:

 

o pão sendo dividido

o riso que escapa no meio da conversa

o jeito como alguém pergunta

se você dormiu bem.

 

E eu penso

enquanto a manteiga derrete devagar:

 

que o amor não mora

nos grandes anúncios da vida.

 

Ele prefere lugares modestos —

a toalha manchada de café

o ventilador girando paciente

a cadeira puxada para mais perto.

 

Talvez seja por isso

que o coração se acalma

quando alguém fica.

 

Não para salvar o mundo.

Não para dizer algo extraordinário.

 

Só para compartilhar

o mesmo prato

o mesmo silêncio

o mesmo dia comum

que, de tão simples,

 

acaba brilhando.