Oswaldo Jesus Motta

Janelas

Caminho pela cidade.

Janelas acesas —

outras afundadas

no silêncio das salas.

Alguém atravessa a rua vazia,

outro espera

o semáforo piscando

na paciência da noite.

Nos passos apressados

quantos carregam

o peso do dia.

Num banco da praça

uma jovem se senta.

Chove.

Abre o guarda-chuva —

não é da chuva

que se protege.

Há uma tristeza fina

caindo por dentro.

Da bolsa

tira um livro.

Abre.

Fecha.

Entre o livro

e o guarda-chuva

hesita.

A cidade segue.

E numa janela apagada

talvez alguém

também agora

aprenda

a difícil arte

de acender

ou apagar

a própria janela.