Sinvaldo de Souza Gino

AURÉLIA À JANELA  Senhora — José de Alencar

Aurélia posta à vidraça fria  
observa o Largo que passa ao sol  
a seda aperta a mão vazia  
não espera amor — espera o rol  
do contrato que ela assinou só  


Fernando vendeu-se por dinheiro  
ela comprou-o com herança e lei  
a rua é espelho passageiro  
onde mede o passo que a ele dei  
— orgulho em forma de bolo-rei  


A janela não é de saudade  
é balcão de bolsa e de desdém  
ela conta carruagem, idade  
do homem que volta porque convém  
e pesa o beijo que não tem bem! 


O vidro devolve seu próprio terno  
ela ensaia a voz de credor  
a rua repete o caderno  
de contas que mancham pudor  
ninguém entra sem seu favor?


Antes pão seco na soleira  
hoje cortina de cetim azul  
quem a viu moça à tarde inteira  
agora vê Senhora no túl  
regando o troco do amor sul!


Carruagem range no paralelepípedo,  
Aurélia aperta o leque, não a mão  
Fernando surge no enredo  
como título de rescisão  
que ela corrige na prestação.


A rua não sabe que ali há caneta  
assinando a vida em papel-moeda  
cada olhar é nota completa  
de dívida antiga que não queda  
— só muda a capa, a mesma prenda  


Ela finge que não liga nada  
a boca fina, o queixo ao léu  
mas o peito guarda a jornada  
do dia em que ele disse adeus  
por um dote azul-céu  

A gelosia fecha um quadrante  
rua perde o foco, ela não  
ganha a sala, o quadro, o instante  
de ser credora do próprio então  
— Senhora finge que é perdão  

Dez sílabas fecham a partida  
Aurélia dona da vidraça e do portão  
a rua segue distraída  
ela guarda a conta e a mão  
manda no eco do salão 

O que ela quer na janela?
Não é suspiro: é auditoria do afeto.  
Ver Fernando cruzar a soleira que ela comprou, medir se ainda obedece ao preço antigo — ou se resta só Aurélia, Senhora do contrato, com a rua como testemunha muda.

 

Quem leu a Senhora, entende!

Quem procura costuma encontrar.

O amor busca depender de um lar!

Quem tem ouvidos ouçam,

Quem não têm, fale baixo!