Aurélia posta à vidraça fria
observa o Largo que passa ao sol
a seda aperta a mão vazia
não espera amor — espera o rol
do contrato que ela assinou só
Fernando vendeu-se por dinheiro
ela comprou-o com herança e lei
a rua é espelho passageiro
onde mede o passo que a ele dei
— orgulho em forma de bolo-rei
A janela não é de saudade
é balcão de bolsa e de desdém
ela conta carruagem, idade
do homem que volta porque convém
e pesa o beijo que não tem bem!
O vidro devolve seu próprio terno
ela ensaia a voz de credor
a rua repete o caderno
de contas que mancham pudor
ninguém entra sem seu favor?
Antes pão seco na soleira
hoje cortina de cetim azul
quem a viu moça à tarde inteira
agora vê Senhora no túl
regando o troco do amor sul!
Carruagem range no paralelepípedo,
Aurélia aperta o leque, não a mão
Fernando surge no enredo
como título de rescisão
que ela corrige na prestação.
A rua não sabe que ali há caneta
assinando a vida em papel-moeda
cada olhar é nota completa
de dívida antiga que não queda
— só muda a capa, a mesma prenda
Ela finge que não liga nada
a boca fina, o queixo ao léu
mas o peito guarda a jornada
do dia em que ele disse adeus
por um dote azul-céu
A gelosia fecha um quadrante
rua perde o foco, ela não
ganha a sala, o quadro, o instante
de ser credora do próprio então
— Senhora finge que é perdão
Dez sílabas fecham a partida
Aurélia dona da vidraça e do portão
a rua segue distraída
ela guarda a conta e a mão
manda no eco do salão
O que ela quer na janela?
Não é suspiro: é auditoria do afeto.
Ver Fernando cruzar a soleira que ela comprou, medir se ainda obedece ao preço antigo — ou se resta só Aurélia, Senhora do contrato, com a rua como testemunha muda.
Quem leu a Senhora, entende!
Quem procura costuma encontrar.
O amor busca depender de um lar!
Quem tem ouvidos ouçam,
Quem não têm, fale baixo!