Oréon

A Vela Morna

Existem dois momentos em que o humano se vê desolado por sua própria natureza. A primeira é quando ele se vê seduzido por um estepe de propósito. Um remendo num vazio enterrado por ideologias e conceitos que inflamam a chama da vela da vida. Mas, a fazem queimar com pressa. 

A outra, é propositalmente oposta a esse fogo. É quando o humano não consegue tapar esse vazio do tamanho de um deus. Cada punhado de terra se perde em meio ao vão da escuridão da alma. Esse humano perde sua chama, não depressa, mas aos poucos. Como uma rachadura na casca que envolve o espirito.

Mas há, entre esses dois, um pior. O que não se apressa em brilhar ou se apagar ao cair da noite. Há aquele que tem em si uma vela morna. Nem quente o suficiente para inflamar uma paixão. E, nem fria o suficiente para esfriar uma vida. 

Esse vive por conveniência. Porque é cômodo estar vivo no momento. Ele não tem desejo pela morte ou descaso pela realidade. O que ele tem é tédio pela vida. Não se vai, pois é mais cômodo estar vivo numa quinta-feira do que não estar.

Esse terceiro tipo é motivado também pelo medo. Não dá morte sua, mas da sua morte perante os próximos. Para ele, é preferível viver do que fazer sua mãe chorar. 

Ele carrega a vida como quem carrega um saco de cimento. Pesa e desgasta, mas sabe que o fruto daquele esforço manterá seus entes alimentados e sadios.