SADE

Entre o Silêncio e um último horizonte

 

Há um tipo de noite
que não se vê no céu.

Ela nasce dentro do peito,
cresce entre pensamentos antigos
e se espalha pela alma
como uma névoa que ninguém além de mim percebe.

Não é tristeza comum.
É algo mais profundo,
como se o tempo tivesse passado por mim
com passos tão pesados
que deixou marcas nas minhas horas.

Caminho pelos dias
como quem atravessa um corredor infinito,
onde cada porta aberta revela
memórias, erros, sonhos que não chegaram a existir.

E às vezes penso…
talvez minha história neste mundo
já tenha sido escrita até o fim.

Não sinto medo quando penso no fim.
O medo pertence aos que ainda se sentem eternos.
Eu apenas observo a ideia
como quem olha o horizonte no mar:
distante, silencioso
e inevitavelmente belo em sua quietude.

A morte…
não me parece um monstro.
Nunca foi.

Para mim, ela sempre pareceu
mais próxima de um descanso antigo,
uma porta entreaberta
numa casa onde a luz é suave
e o barulho do mundo não entra.

Talvez seja estranho dizer isso,
mas há uma paz melancólica
em aceitar que tudo é passageiro.

As cidades passam.
Os nomes desaparecem.
Os livros se fecham.
Até as estrelas um dia se apagam.

E nós…
somos apenas um sopro
entre dois silêncios infinitos.

Às vezes sinto que já vivi
mais dentro da minha mente
do que neste mundo.

Ali caminhei por universos inteiros,
amei pessoas que talvez nunca saibam,
escrevi palavras
que o vento levou antes de nascerem.

E mesmo assim
existe algo que ainda me prende aqui.

Não é o mundo.
Não são as ruas,
nem o barulho dos dias apressados.

São as pessoas.

Poucas…
tão poucas que posso contá-las
sem precisar das duas mãos.

Mas nelas existe algo raro:
um pedaço de mim.

Um olhar que ainda me procura.
Uma voz que pergunta se estou bem.
Um abraço que não exige explicações.

E isso…
isso pesa mais do que qualquer cansaço.

Porque o amor
mesmo pequeno
mesmo silencioso
mesmo imperfeito…

é uma âncora.

E enquanto essa âncora existir,
enquanto houver alguém
que ainda carregue um pouco de mim dentro do peito,

meu coração continuará aqui,
preso a esta terra,
caminhando entre dias e noites
como um viajante antigo.

Talvez o mundo nunca perceba
minha passagem por ele.

Mas aqueles poucos
que caminham ao meu lado…

sabem que ainda estou aqui.

E às vezes
isso basta.

Mesmo nas noites mais profundas
mesmo quando o silêncio pesa mais que o tempo
mesmo quando a alma parece cansada demais para continuar…

o amor de poucos
ainda consegue acender
uma pequena luz

no meio da escuridão infinita.