L Lacerda

01 - A Mulher que Não Sabe

E eis que este tolo ser
retorna, dia após dia,
ao lugar onde a razão falha
e os números não se somam.
Como quem procura a própria ruína
sabendo exatamente onde ela está.

 

À frente da silhueta dela,
finjo normalidade.
Mas por dentro, algo range,
algo cede,
algo desaba em silêncio.

 

Dias em que ela se atrasa
e a espera me corrói como ferrugem.
Dias em que já está sentada
e o simples fato de existir ali
me sufoca.

 

Quando ela passa por mim,
não é passagem — é invasão.
Ela atravessa minha pele,
me desloca da própria consciência.
Quase me leva.
Quase me denuncia.
Quase me expõe ao ridículo do que sinto.

 

O sorriso que ofereço é mecanismo de defesa.
É máscara.
É trincheira erguida às pressas.
Porque o perfume dela não é doce —
é sentença.
Arde no peito como lembrança
de algo que nunca foi
e já me falta.

 

E quando ela está ali, inteira,
ocupando o próprio espaço com descuido,
há algo mais cruel no mundo
do que a beleza que não nos pertence?

 

É como entrar numa corte
e ver ao fundo a Rainha —
inatingível, luminosa,
inconsciente do estrago que provoca.

 

Um nó na garganta que não desata.
Um frio que paralisa o peito.
Não são borboletas —
é queda livre.

 

E ali me pergunto, fragmentado:
quem devo ser?
O bobo que transforma dor em piada?
O cavalheiro que morre em silêncio?
Ou o plebeu que ousa desejar
o que jamais poderá tocar?

 

“Ah se ela soubesse, o quanto eu sou tão carinhoso”

 

Se ela soubesse
que por trás desse riso calculado
há um homem em contenção permanente.
Que cada passo dela é terremoto contido.
Que cada ausência é abstinência.

 

Mas fico eu, acorrentado à própria lucidez,
assistindo outro se aproximar.
E sorrio —
porque é isso que se faz
quando o coração não tem direito à disputa.

 

Torço pelo pobre coitado, sim.
Porque seria trágico demais
ver um peixe pequeno acreditar
que pode reivindicar
a extensão brutal do mar.

 

E talvez o mais cruel
não seja amá-la.

 

Seja saber
que quando ela passa,
leva um pedaço meu
que nunca percebeu existir —

 

e eu permaneço aqui,
inteiro por fora,
desmoronando por dentro.