João Rodrigues

Um bom mentiroso

A mentira é aliada minha
está comigo desde que tenho consciência,
seja pra contar aos amiguinhos o quão incrível minha vida era 
quanto para esconder os cacos da xícara, para que as raras horas
que eu tinha com a minha mãe, não fosse de castigo ou gritaria.
Desde Pequeno, um bom mentiroso.
 
Criado, forjado desde o início como \"a criança que nunca deu trabalho\", 
fui nomeado dessa forma com tanto orgulho e comparação,
que tipo de filho eu seria se a decepcionasse?
Contasse que eu não queria estudar e que o motivo de eu ir à escola
era por que lá eu tinha amigos, 
apesar de que com minhas mentiras eu tinha que sustentar,
para parecer legal e me incluírem e não me isolar. 
Desde pequeno, um bom mentiroso.
 
Menti sobre tudo na vida, sobre lugares que fui
experiências que tive, e fatos que ocorreram,
apesar de muito bem executadas, algumas foram desnecessárias,
mas mentir já é hábito, e um costume ganancioso,
quando você passa pela sensação de algo quase dar ruim
e a mentira te salva ileso do incômodo e da culpa, ela vicia.
Quando pequeno, descobri que era um bom mentiroso.
 
Mentindo o que sentia e que minha semana tinha sido ótima,
olha eu mentindo mais uma vez, nunca foi me perguntado como estava;
pelo menos não com o real interesse de saber, assim me privei. 
Quando percebi que mentir que estava bem, era mais fácil que dizer o que sentia
pois assim eu sabia que aquela pessoa, com meus problemas, eu não à incomodaria.
Fui me educando, e para não te incomodar —
Eu seria sim, um bom mentiroso.

Por centenas de vezes me omiti; e me convenci que chorar era besteira,
pois os adultos já tem problemas demais;
tive que mentir que era jogando até tarde, o motivo das minhas olheiras;
adultos, eles têm problemas reais.

Já foi mecanismo de defesa, hoje de adaptação,
sempre me foi elogiado a facilidade de fazer amizades;
fica fácil quando você espelha os gostos de uma pessoa em você,
ela se conecta, inventar uma personalidade para o momento é fácil agora.

Hoje consigo falar sobre qualquer assunto que você propor,
consigo falsificar o que sinto, o que estou vivendo e até minha visão de mundo;
só para que de alguma forma você se sinta conectado comigo.
Talvez por tentar me moldar ao sentido de vida dos outros,
acabei por me perder do meu.
Agora não passo de uma longa mentira.

De tanto se moldar para caber nos lugares para não ser abatido,
hoje não sei se sobrou algo realmente meu.
Mentir não tem fundo, porém permaneço boiando, afundarei se parar de mentir,
aí sim me afogarei em minhas verdades que me trouxeram até aqui;

Por isso ainda minto, se não minto, omito
fará pra sempre parte de mim, pois se eu não mentir
quem ainda permanecerá aqui? Não sei e nem quero pagar pra ver
o que resta é tentar fazer virar verdade minhas mentiras, por que desmentir —
isso nunca vai acontecer.
Isso faz de mim um bom mentiroso?