João Rodrigues

Ícaro, Naiá e Nós

 

Queria tanto que fosse nós, mas pelo visto isso não era mútuo,
muitas vezes ao te olhar travei o \"eu te amo\" na garganta 
dessa ciência, nunca tinha experimentado, 
é uma pena eu ter provado dessa droga artificialmente.

 

Estranhei você nunca dizer o \"eu também\",
achei que você tinha apenas ficado sem jeito 
mas na verdade era mais simples do que parecia — 
você só não sentia o mesmo.

 

Os momentos foram bons na sua visão,
isso eu entendi na sua fala,
mas para mim; foram como refúgio, uma luz,
mas não como a luz do sol, 
essa era mais aconchegante –
pois era a luz da Lua... –

 

Agradeço por todas aquelas noites, 
poucas mas com certeza as melhores; 
eu respirei você,
agora eu te entendo Ícaro, parecido com você,
achei que conseguiria chegar próximo da Lua 
foi me dado asas, achando eu que ganharia os céus
voei o mais rápido que pude em direção à ela, 
ignorando todos os pressentimento que aquilo daria errado;

 

agora escrevendo, lembro-me de vários contos,
e todos se encaixam aqui, 
Ícaro, voei incansavelmente, 
apaixonado pela Lua e por seu brilho que transmitia à mim;
quando achei que estava à centímetros dela, fechei os olhos e me entreguei,
aguardei somente pelos segundos que restavam para tê-la;

 

mas assim como com Naiá, 
era apenas o reflexo da Lua na água, 
agora com as asas molhadas, 
não vejo nada que impeça minha queda, 
minha lenta e custosa queda ao fundo d\'agua.

 

O que parecia tão perto, agora afundado, 
vejo que nunca esteve ao meu alcance, 
se isso também fosse um conto, 
seria abençoado a virar uma vitória-régia, 
mas a vida de verdade não é assim;

 

sobrou para mim apenas seguir em frente,
escrevendo meu próprio conto, 
usando de caneta uma pena das minhas asas 
e de tinta, somente a água que dela escorre, 
vocês não saberão o que eu escrevi, 
mas sentirão que aquelas marcas de água e rasgos no papel –
são a minha ruína.