L Lacerda

02 - O Que Ela Não Vê

Eu que fingia neutralidade
enquanto teus cachos desciam livres
sobre o pescoço que eu imaginava
sob minhas mãos.

O mesmo eu
que antes suportava tua passagem
como quem suporta um abalo sísmico —
agora já não suporta.

Salivo pelo sal da tua pele
como quem reconhece território
sem jamais ter tocado.

Teu pescoço —
é ali que meu pensamento começa a falhar.
Ali onde a respiração encontra a pele,
onde o perfume se faz morada.

Eu mergulhava nos teus olhos
em busca de permissão,
mas hoje mergulho
em busca de perdição.

Porque o sentimento contido
apodrece quando não respira.
E o que era silêncio
agora pulsa.

Desejo teu corpo
com a mesma intensidade
com que antes escondia meu afeto.

Nas tardes em que te observava
já não era só cuidado —
era fome.
Era imaginação desobediente.
Era a vontade de desfazer
cada botão que me impedia de existir.

Mas não é a mim teu caminho.
Não é a mim tua entrega.

E é justamente isso
que transforma ternura em incêndio.

Eu queria um pouco mais —
não só do teu jeito,
não só da tua mania,
mas do calor que existe
entre o que quase acontece
e o que jamais acontecerá.

Meu Deus…
como eu queria.