O Poeta não é garçom
Me cobram palavras de aplicativo, gíria fresca, hashtag, verbo novo como se poema fosse bula de remédio e não água tirada no balde roto. Ou as vezes julgam ser de \"IA\" pelo o uso de palavras em desuso!
Mas eu sou do tempo em que besta era burro, em que cântara pesava a tarde, e não peço licença ao dicionário pra beber no poço que a infância guarda.
Cada poeta tem sua tona,
um traz a rua, outro traz o avô,
um lambe asfalto, outro lambe o musgo da pedra onde a avó lavou lençol.
Criticar quem usa palavra antiga é como zombar do rio porque corre com nome de índio e curva de barro, como querer que o sino toque funk.
Poesia não é vitrine de loja,
não precisa caber no Instagram.
Ela é caco, é cântico, é cisco
às vezes usa “escudeiro”, às vezes “crush”, e tá tudo certo se vier de dentro.
Então me deixem no meu brocal,
com apoupas, alforjes, trasgos na fala:
quem não sabe ler o poço fundo
chama de “erro” o que é marca d’água.