Dizem que a mulher
tem um talento especial
para fazer muitas coisas
ao mesmo tempo.
Eu suspeito que não é talento —
é um tipo curioso de dança.
Enquanto converso
com a vizinha na porta,
minha mente tempera o feijão de amanhã,
lembra da conta de luz,
e ainda se pergunta, discretamente,
qual é mesmo o sentido da vida
e se ele combina com sapatos confortáveis.
Eu converso,
penso,
planejo —
e percebo aquele detalhe minúsculo
que passou invisível
pelos olhos apressados do mundo.
Um botão quase caindo,
uma tristeza escondida numa risada,
uma planta pedindo água em silêncio.
Enquanto alguns tentam
organizar a vida com planilhas
cheias de colunas, gráficos e previsões,
eu organizo com uma colher de pau,
um caderno rabiscado,
e uma intuição que acorda antes do despertador.
Não é método científico,
mas funciona surpreendentemente bem.
Às vezes penso
que minha cabeça é como uma cozinha em dia de festa:
várias panelas no fogo,
um cheiro de futuro no ar,
e alguém perguntando se já está pronto.
Quase nunca está.
Mas curiosamente
sempre fica.
No fundo, talvez seja por isso
que o mundo continua funcionando.
Enquanto filósofos discutem o infinito
e economistas revisam números importantes,
há uma mulher
lembrando onde ficaram as chaves,
percebendo que alguém precisa de abraço,
e salvando o jantar
antes que ele vire tragédia.
Alguém está pensando em tudo.
Ou quase tudo —
porque esquecer de si mesma
às vezes acontece.
Mas ela volta,
ri da própria distração,
e continua a dança.
Talvez o universo
seja apenas isso:
uma grande bagunça cósmica
mantida em pé
pela sensibilidade teimosa
de quem, entre uma ideia e outra,
ainda repara
que a vida precisa de sal
— e de poesia.