Sezar Kosta

ENTRE CINZA E ESTRELA (Homenagem ao Dia da Mulher)

Ser mulher começa cedo,

quando o dia ainda tem gosto de madrugada

e o mundo pede mãos antes mesmo de pedir sonhos.

 

Há sempre um primeiro gesto:

abrir janelas, acender o café,

organizar o pequeno universo da casa

como quem ajeita as estrelas invisíveis do cotidiano.

 

Nesse começo de dia

há algo de cinza nas horas —

não o cinza da tristeza,

mas o da brasa escondida sob a lenha,

a cor humilde do trabalho que sustenta a vida.

 

Ser mulher, muitas vezes,

é caminhar entre panelas, papéis, relógios apressados,

equilibrando responsabilidades

como quem carrega água em vasos de vidro.

 

Ninguém vê o peso exato desse equilíbrio,

nem a disciplina silenciosa

de quem aprende a cuidar

sem deixar que o próprio coração se perca no caminho.

 

Mas dentro dessa rotina

mora uma transformação secreta.

 

Porque ao cair da tarde,

quando a luz se inclina sobre os telhados

e o cansaço pousa nos ombros como um pássaro quieto,

algo começa a mudar.

 

A mulher recolhe o dia como quem fecha um livro,

lava das mãos o pó das horas,

e no espelho simples da noite

reencontra a própria centelha.

 

Então o que era cinza se ilumina.

 

Não por magia de conto antigo,

mas por uma força mais real:

a capacidade de reinventar-se

sem abandonar a própria essência.

 

Ela pode vestir um sorriso,

acender a conversa,

espalhar delicadeza pela sala

como quem acende velas em um quarto escuro.

 

E ali está a verdade que poucos percebem:

não há duas mulheres —

uma da luta e outra do encanto.

 

Há apenas uma mesma alma

atravessando o dia com coragem

e a noite com brilho.

 

Porque ser mulher

não é viver entre cinza e estrela.

 

É transformar a própria cinza

na matéria luminosa

com que as estrelas são feitas.