MULHERES-VIDAS
Mulheres devotas todas piedosas
Fazem seus lares
Todas pressurosas
Seus mínimos altares.
Mulheres divinas
Deusas de suas camas
Todas concubinas
Presas em seus dramas
Formosas meninas.
Mulheres carentes
A vagar na rua
Ninguém compreende essas indecentes
Pois que lhe abriga é somente a lua.
Mulheres devassas
De olhar profundo
Nos bancos das praças
Sonha seu mundo.
Ninguém lhe abraça
Todas sem porvir
Nem lhe resta a graça
De poder sorrir.
Mulheres sem leito
Sem chão nem respeito
Guardam a alma
Num canto do peito
Para que a luta lhe seja mais calma.
Nascida donzela
Todas puras retiradas
Da mesma costela
Do mesmo barro amassadas
Branca, preta, amarela.
Puras, senhoras, prostituídas
Santas, beatas ou perdidas
Descritas pela mesma Lei
São todas mulheres -vidas
Que de um só barro tirei.