Há partidas que chegam devagar,
anunciadas pela dor,
pelos dias que se despedem pouco a pouco,
pelos olhares que já sabem.
E há outras…
que rasgam o silêncio da vida
sem aviso.
Aquela partida silenciosa e repentina
não bate à porta,
não pede licença,
não deixa tempo ao coração para entender.
Chega como um sopro
que apaga uma luz
no meio da noite.
E quem fica
fica perdido entre perguntas,
procurando sinais
onde nunca houve pistas.
Porque na luta contra a doença
há despedidas sussurradas,
há mãos que se apertam pela última vez,
há lágrimas que já sabem o que vem.
Mas na partida silenciosa
não houve gritos.
Não houve sinais.
Não houve tempo.
Nenhuma despedida.
Apenas um silêncio pesado
que cai sobre os dias
como um céu sem estrelas.
E nesse silêncio
ecoam os \"porquês\"
que ninguém consegue responder.
Ficam as memórias suspensas,
os gestos simples,
as palavras que ficaram por dizer.
Porque quem parte assim
leva consigo o som da própria voz,
mas deixa em nós
um vazio que o tempo
nunca aprende totalmente a preencher.
E no meio desse vazio
resta apenas o amor,
teimoso e eterno,
a lembrar-nos
que algumas presenças
continuam a viver
mesmo depois do silêncio.