Há dias em que o amor me visita
como uma manhã parada,
daquelas em que o vento esquece de soprar
e as cortinas apenas respiram devagar.
A luz entra tímida pela janela,
mas não aquece nada.
É um sol pálido, cansado,
como se também tivesse perdido alguém.
Assim é o amor, às vezes.
Ele chega silencioso,
senta-se ao nosso lado
e promete eternidades
com a voz baixa de quem
talvez já saiba
que não ficará.
Naquela manhã imóvel
os minutos não caminham
eles se arrastam.
O relógio parece pensar demais
antes de cada segundo,
como se cada tic
fosse uma memória
que não quer nascer a cada tac
E eu lembro do amor
como quem abre uma carta antiga
escrita com tinta de saudade.
No começo ele era primavera
crescendo nas bordas da vida,
era riso fácil,
era pele quente
e olhos cheios de promessas.
Mas o amor também sabe mentir
com uma beleza devastadora.
Ele se veste de luz
apenas para nos ensinar
como é profundo
o escuro.
E então chega a tarde.
Aquela tarde vazia
em que as ruas parecem longas demais
e os pensamentos fazem eco.
O amor, nessa hora,
é como uma casa abandonada
que ainda guarda o perfume
de quem partiu.
Caminhamos pelos cômodos
das lembranças
tocando paredes de silêncio.
Cada gesto que existiu
vira fantasma.
Cada palavra dita
vira um espelho quebrado.
E percebemos
com uma lucidez cruel
que amar é também
aprender a perder.
O amor não morre de repente.
Ele se dissolve.
Primeiro nos olhares,
depois nos gestos,
depois no jeito de dizer o nome um do outro.
Até que sobra apenas
um vazio elegante
ocupando o lugar
onde antes havia mundo.
A tarde então se alonga
como uma despedida que não termina.
O céu fica mais cinza
e a alma aprende
a caminhar mais devagar.
Mas a noite…
Ah, a noite conhece o amor
em sua forma mais honesta.
Ela chega como um manto pesado
sobre o peito.
E a insônia abre seus olhos.
Na escuridão
os pensamentos ganham voz.
O amor volta
não como presença
mas como memória.
E as lembranças são criaturas estranhas
elas sabem exatamente
onde doer.
É na madrugada
que entendemos tudo.
Que o amor foi lindo
e ao mesmo tempo cruel.
Que nos ensinou a voar
apenas para descobrirmos
a altura da queda.
E ali, no silêncio profundo,
entre um suspiro e outro,
percebemos algo curioso:
Mesmo depois de toda desilusão,
mesmo depois do abandono do sonho,
mesmo depois das ruínas
que ele deixa no coração...
Ainda existe
uma pequena chama.
Quase invisível.
Frágil
como a primeira luz
antes do amanhecer.
E talvez seja por isso
que eu ainda espere.
Espere que um dia
entre uma manhã silenciosa
e uma noite de insônia,
o destino coloque diante de mim
um novo começo.
Talvez um amor sereno,
com um sorriso capaz de iluminar
até os dias mais nublados.
Talvez alguém
com a delicadeza nos olhos,
com a luz suave
de cabelos claros tocados pelo sol,
com aquele sorriso aberto
que parece transformar o mundo
em um lugar mais leve.
Um amor que traga calma
onde antes houve tempestade.
E quem sabe…
talvez o amor que ainda procuro
tenha exatamente
a mesma luz tranquila,
o mesmo olhar doce
e o mesmo sorriso encantador
e um corpo lindo .
Se for assim,
então todas as manhãs paradas,
todas as tardes vazias
e todas as noites de insônia
terão sido apenas
o caminho silencioso
que a vida desenhou
para finalmente
me levar
até ela.