Sinvaldo de Souza Gino

A Janela da casa de Cora Coralina

A JANELA DA CASA DE CORA CORALINA

Na Cidade de Goiás,  
quando o sol faz pirraça,  
Cora abre a janela  
e o mundo se desmancha:  

Rio Vermelho em frente,  
água cor de telha,  
leva folha, leva tempo,  
leva a voz da igreja.  

A ponte de pedra corta  
o fluxo devagar  
por ela passa o menino,  
a velha, o seu luar.  

Do outro lado, pomposo,  
o Palácio de cal,  
mas Cora prefere a praça,  
o coreto seu quintal.  

Aí a banda se aninha,  
clarineta a chorar,  
e a madeira do coreto  
sabe abrigar o ar.  

Jabuticaba madura
no prato da cozinha  
manda um cheiro roxo  
que entra na vidraça fina.  

E quando a luz declina,  
rasga o céu a cigarra:  
_cri-cri-cri_ na goiabeira,  
memória que não para.  

Cora molha a pena,  
olha pedra, olha água,  
escreve que a beleza  
é coisa que não maga!

“Esta janela é rede:
pega o rio, o som, o fruto,  
o Palácio lá longe,  
e o povo aqui enxuto.  
Quem vê com alma aberta  
nunca perde a morada,
tem praça dentro do peito,
rio na madrugada.”