A JANELA DA CASA DE CORA CORALINA
Na Cidade de Goiás,
quando o sol faz pirraça,
Cora abre a janela
e o mundo se desmancha:
Rio Vermelho em frente,
água cor de telha,
leva folha, leva tempo,
leva a voz da igreja.
A ponte de pedra corta
o fluxo devagar
por ela passa o menino,
a velha, o seu luar.
Do outro lado, pomposo,
o Palácio de cal,
mas Cora prefere a praça,
o coreto seu quintal.
Aí a banda se aninha,
clarineta a chorar,
e a madeira do coreto
sabe abrigar o ar.
Jabuticaba madura
no prato da cozinha
manda um cheiro roxo
que entra na vidraça fina.
E quando a luz declina,
rasga o céu a cigarra:
_cri-cri-cri_ na goiabeira,
memória que não para.
Cora molha a pena,
olha pedra, olha água,
escreve que a beleza
é coisa que não maga!
“Esta janela é rede:
pega o rio, o som, o fruto,
o Palácio lá longe,
e o povo aqui enxuto.
Quem vê com alma aberta
nunca perde a morada,
tem praça dentro do peito,
rio na madrugada.”