Noétrico

Apneia

A unha risca o reboco
só para sentir o cálcio
sob o verniz da mão.

Não há contrato.
Há o quartzo,
o lodo,
o resto de café que esfria
e vira um espelho escuro
onde o rosto não se reconhece,
apenas se aceita.

O mundo não é poeira.
É gordura.
É o que sobra quando o significado
desiste de explicar o peso.

Não quero o ar limpo.
Quero o engasgo,
a falha no motor,
o dente que morde o lábio
até o ferro do sangue
interromper o pensamento.

O silêncio não é abrigo.
É um buraco na parede
por onde passa o cheiro
de quem não pediu para ficar.

Vendi as portas.
Agora o que entra,
mora no vão.