Michael Dias

Humanidade


A Queda
Desde o princípio sofro com aquele tropeço, sabe? Aquele dia em que tudo passou a mudar. Quando, ao invés de te olhar, eu comecei a me olhar e reparar que havia formosura em mim. Logo te esqueci, coloquei você em um canto, amarrado com uma corda, e como um cachorro amarrado te deixei e fui viver.
Até que um dia, quando me dei conta, a minha formosura havia se tornado em algo sem forma e vazio. Então sentei e lembrei do lugar e de quem me fazia feliz e me fazia ser um ser formoso.
Quando fui ao canto com a coleira que pensei ter te deixado, veio-me a surpresa: você estava lá, só que quem estava usando correntes era eu. Você me olhava com uma cara de pena, mas sabia que a pena justa teria que ser executada, pois eu lhe abandonei em troca de mim mesmo.
Então o Senhor olhou para mim e falou que nunca esteve preso; ao contrário, que era e sempre será o sinônimo de liberdade. Mas quem havia trocado isso por correntes, que me prendiam àquela tristeza e solidão, era eu.
O Senhor virou-se triste e foi embora.
Passaram-se três anos, e o dia da minha condenação chegou.
O Senhor chegou naquele canto onde eu estava acorrentado, feito um animal, e olhou em meus olhos. Viu que não havia mais vida e pensou que algo tinha que ser feito. E o Senhor o fez, pois tornou a sair e voltou com um homem que era como eu em meu estado livre, mas ainda assim era diferente de mim.
Eu olhei sem entender. O Senhor me disse:
— Este é meu filho, a quem me comprazo.
Logo, esse rapaz, que era idêntico ao meu Senhor, tomou o meu lugar no dia da minha condenação. Ele pagou por algo que nem fez, e eu não entendi. Mas meu Senhor permaneceu quieto e imóvel, vendo seu filho ser humilhado e espancado em meu lugar.
Depois de assistir aquilo, meu Senhor me levou para uma casa onde recebi um tratamento diferente. Tive uma família — e que família boa! — que refletia a bondade do meu Senhor.
Mas nunca me esqueci daquele homem que havia pagado em meu lugar.
Um dia, com o vazio novamente me corroendo, meu Senhor apareceu e disse que havia chegado a hora de eu morrer. Aceitei, triste e depressivo, e fiquei aguardando o dia em que ele viria me buscar para minha execução.
Quando chegou o dia, meu Senhor veio acompanhado de um rapaz bem formoso. Uma formosura que não tinha precedentes.
Perguntei quem era aquele rei que estava com meu Senhor. Logo ele respondeu:
— Você não se lembra do meu filho que ficou em seu lugar? Ele morreu, e hoje vive, e alcançou o lugar mais alto por fazer isso.
Sem acreditar, eu chorei. E quando ele levantou a mão, pude confirmar que realmente era ele, pois suas cicatrizes estavam no mesmo lugar onde haviam feridas.
Logo ele sorriu e falou para que eu ficasse em paz, que ele estava comigo.
Fui conduzido à forca e, na hora em que estava morrendo, aquele rapaz que se sacrificou por mim falou:
— Bem-vindo à vida.
E desde então já estou morto, mas aguardando o momento em que o meu Senhor virá me levar para nossa casa, da qual eu nunca deveria ter saído.