O ÚLTIMO CIGARRO
(Em memória de Francisco Erasmo Rodrigues de Lima)
4 de setembro de 2015.
O sol nascia como sempre nasce, indiferente.
A cidade corria em passos apressados e ligeiros, e eu, mais uma vez, acordava sem saber se o dia me queria vivo ou apenas me tolerava pela calçada.
Mais um amanhecer sem perspectivas, mais uma manhã que eu não enxergava como manhã, mas como continuidade de uma noite, de um pesadelo que nunca terminava.
A vida, para mim, era um intervalo curto
entre a fome, o esquecimento e a saudade.
Ainda assim, lá dentro, bem fundo,
existia uma chama pequena, teimosa,
uma fagulha que insistia em me lembrar
que eu ainda era homem.
Homem de carne, de passado,
de erros, acertos, memórias,
e fé, por mais que ela tremesse.
Agarrei essa chama com os dedos trêmulos
e acendi o meu último cigarro.
O fogo estalou na ponta como se dissesse meu nome pelo último vez.
O primeiro trago veio lento, arrastado,
um nó na garganta e outro no peito.
Era meu instante de silêncio,meu breve acordo de paz com o mundo.
Mas então, entre o barulho dos carros,
os passos apressados e a indiferença da multidão, alguma coisa me tirou o ar.
Um grito.
Um pedido que não coube na voz da mulher.
Vi seus olhos procurando socorro, vi as mãos do canalha roubando dela
a pureza e dignidade que Deus lhe deu,
e vi uma cidade fingindo que não via.
O cigarro queimou um pouco mais.
O último trago veio dolorido, pesado,
como se minha alma estivesse no filtro.
E ali, naquele segundo que cabia uma vida inteira, meu corpo moveu antes da minha mente.
Não pensei em miséria, não pensei em futuro, não pensei na ausência de um lar,
não pensei na minha morte, pensei apenas nela.
Na mulher que tremia, no medo que ela segurava com os dentes, na vida que ainda pulsava dentro dela e já morta em minha alma.
E então eu soube, se Deus me deixou aquela chama acesa, ela tinha um propósito.
Soltei a fumaça devagar, como quem se despede.
O vento frio levou o resto do cigarro
e com ele, talvez, o que me restava de passado de uma mente embaralhada pela embriaguez.
Dei meu passo, depois outro.
E quando percebi, já não era mais um morador de rua, o pedinte em busca de curar a sua dor com entorpecentes.
Eu era apenas um homem indo ao encontro
de seu destino final.
A dor veio rápida, sem aviso, mas não importava.
Havia luz na escadaria da Sé, havia proteção ao redor da mulher, havia paz no fim do meu caminho.
Enquanto caía, pensei na vida que eu tive,
nos filhos perdidos pelo tempo, no amor que não encontrei, na chance que o mundo nunca me deu, nos erros cometidos, em que nunca conseguirei reparar.
Mas pensei também
que talvez a minha existência inteira
tivesse sido escrita para este instante.
E sorri, não com os lábios,
mas com o espírito, porque entendi, no silêncio da minha última respiração,
que não morria como ninguém.
Morria como alguém, como HOMEM.
Como um herói que ninguém esperava,
mas que o destino escolheu no improviso das ruas da metrópole paulistana.
Meu corpo ficou, mas minha chama…
essa não se apagou.
Era o fim do cigarro, era o último trago e o começo da eternidade.
Por Freddie Seixas!