Sezar Kosta

A MORADIA DO AMOR

O amor não é vento que passa —

é casa escolhida em terreno de incertezas.

 

Não nasce pronto:

ergue-se em tijolos de conversa,

amassa-se no barro das diferenças,

seca ao sol paciente dos dias comuns.

 

Há quem pense que amar é tempestade,

mas eu aprendi

que é telhado firme

enquanto a chuva insiste.

 

Amar é varrer o orgulho da sala,

abrir janelas quando o silêncio pesa,

trocar lâmpadas queimadas

antes que a sombra se acostume.

 

É acender o fogão do afeto

mesmo nas manhãs frias,

é deixar o pão do cuidado crescer

no tempo certo da espera.

 

A morada do amor

não se herda —

escolhe-se,

todos os dias.

 

E quando o vento muda de direção,

não fugimos:

reorganizamos os móveis da alma,

pintamos de novo as paredes do medo,

plantamos jardim na varanda da esperança.

 

Porque amar, enfim,

é decidir ficar —

e transformar abrigo em lar.