Brunna Keila

Eu também sei ir.

Eu também sei ir.

Aprendi quando o amor começou a doer mais do que caber.

Tem gente que acha

que a gente fica por fraqueza.

Mas ninguém vê

as noites em claro,

o peito apertado,

a ansiedade roendo por dentro

como ferrugem em ferro esquecido na chuva.

O amor, quando machuca,

não corta por fora —

adoece por dentro.

Tira o apetite.

Bagunça o sono.

Faz o coração bater como se estivesse fugindo

de algo que mora dentro dele mesmo.

Eu também sei ir.

Sei ir quando começo a perder peso

de tanto engolir silêncio.

Quando meu corpo grita

o que minha boca insiste em calar.

Porque amar não deveria ser febre constante,

nem dor crônica,

nem esse cansaço que parece não ter cura.

Eu fiquei.

Fiquei acreditando que ia melhorar.

Que o carinho voltaria.

Que a ausência era só fase.

Mas eu também sei ir

quando percebo que estou me adoecendo

para manter alguém saudável na própria culpa.

Eu também sei ir

quando o amor vira diagnóstico

e eu me torno paciente

de algo que nunca deveria me ferir.

E quando eu for,

não vai ser por falta de amor.

Vai ser por excesso de dor.

Porque eu também sei ir —

antes que eu deixe de existir.