Mesmo sabendo do mal que me quer,
não cultivo espinhos no peito
quando o assunto é você.
Mesmo sabendo que a minha presença te irrita
e que a minha ausência te devolve o ar,
não aprendi a te odiar.
Não consigo ser indiferente.
Não sei fingir que não vejo
quando teus olhos atravessam os meus
como se eu fosse um erro de percurso.
A minha sã consciência
essa visita inconveniente
que sempre chega sem avisar
sussurra que eu deveria te oferecer
a mesma dose de gelo
que você me serve em copos largos.
Mas eu não sou assim.
Invejo esse teu lado,
e isso é a minha sentença.
Tua habilidade cruel de sair ilesa
enquanto eu fico recolhendo pedaços
do que nem chegou a ser nosso.
Invejo essa capacidade quase divina
de não se afetar.
Se eu tivesse metade do teu gelo,
conquistaria o mundo em dois meses.
Você me olha como quem já decidiu
que eu sou nada.
E eu te olho como quem ainda acredita
que até os muros mais altos
podem aprender a florescer.
Talvez o meu erro não seja te amar.
Talvez seja insistir em ser humano
num jogo onde ganha
quem sente menos.
E no fim,
se alguém precisa perder,
que seja eu
porque prefiro sangrar de verdade
a vencer o mundo
com o coração morto.