L Lacerda

O Que Não Devíamos

E sim, é ela. Ela me chama.
E, finalmente, sabendo.

 

Há algo no jeito —
não é convite, é decreto.

 

Rainha nenhuma foi tão certa do poder que tem
quanto ela, quando encosta na porta
e me olha de baixo.

 

E eu vou.
Finjo que escolho.
Finjo que conduzo.
Finjo que poderia negar.

 

Mas a verdade é simples:
eu sempre estive a caminho.

 

Quando me aproximo,
não há mais corredor,
não há mais mesa,
não há mais números.

 

Só pele.

 

Ela me puxa pelo peito
como quem desce um véu.
Morde como quem marca território.
Suspira como quem reivindica.

 

Não há delicadeza frágil — há entrega firme.
Há pressa acumulada de meses e anos.
Há silêncio rompido em respiração.

 

E quando ela arqueia o corpo,
não é rendição — é comando.

 

Eu desmorono nela

deixo de existir nela

e não quero sair dela

como andarilho do deserto que encontrou

agua de uma fonte a sombra de uma montanha

por um instante

como quem finalmente
tem permissão de cair.

 

Depois, o mundo volta devagar.
Posso abrir lentamente os olhos

 

Os lençóis são não são lençóis
são papeis espalhados
A noite nem foi noite
so um tempo a sos

 

E Ela finalmente em mim repousa
e bebeu da minha fonte
tomou do meu mel e do meu carinho
e descansa com o que sobrou de mim ao seu lado.

 

E eu fico ali —
não mais o homem que observava,
não mais o que desejava em silêncio —
mas ainda assim
servo.

 

Não da necessidade.

 

Dela.