Luiz Pipa

Ultramar

Na beira da vida, ela brinca com os ângulos agudos. Aprendeu que seu trabalho era esse: remover, dos ângulos rasos, os obtusos. Desacostumar do costume. Porque até aqui parecia que todos os ventos tinham por hábito levar quase tudo ao mesmo lugar, e ir contra a maré é ir em busca de afogamento. Quero me afogar, ela dizia, correndo da margem para o fundo, e ondas indiferentes ao seu desejo gritavam, no movimento oposto: para se afogar é preciso as ondas ultrapassar.


A sensação de ir até onde seus pés não tocam a areia, seus ossos alavancam e seus músculos eletrificam o movimento. Esse é o ângulo agudo de sua vida, entre as linhas do ar que ameaça faltar. Ali se sente viva, ao se dar conta da utilidade do ar pela sua falta. Quando volta para a margem, caminha, pois descobriu o valor da ausência do chão.


Não faz isso todos os dias porque tem medo do maior abismo da vida, o costume. Deixa por conta do ocaso que a leva ao acaso do desaguar; sem dar-se conta, ela acaba na beira do mar depois de tantos quaisquer dias; sem muito ponderar, vai da beira à eira e quando volta não é a mesma.