Brunna Keila

Meu estômago não sente fome e nem falta.

Meu estômago não sente fome e nem falta.

Ele desaprendeu o horário das refeições

porque vive obedecendo o relógio apressado da ansiedade.

É estranho como a ansiedade não grita —

ela sussurra por dentro,

aperta devagar,

cansa sem que a gente tenha corrido.

Ela senta no peito,

bagunça o ar,

embaralha os pensamentos

e deixa o corpo inteiro em estado de alerta,

como se algo estivesse prestes a acontecer

— mesmo quando nada acontece.

Meu estômago fecha as portas.

Não quer comida.

Não quer conversa.

Não quer mais nada além de silêncio.

E o silêncio também pesa.

A ansiedade é essa visita que não avisa que vai embora.

Ela seca a boca,

tira o sono,

faz o coração bater como se estivesse fugindo

de um perigo invisível.

E a gente vai ficando exausta

sem ter levantado peso algum.

O corpo começa a falar o que a boca cala:

dor de cabeça,

tontura,

fraqueza,

um cansaço que não se cura com uma noite de sono.

Meu estômago não sente fome e nem falta,

mas sente medo.

Sente o mundo grande demais

e as expectativas maiores ainda.

E aos poucos a gente entende:

não é falta de apetite,

é excesso de preocupação.

Não é preguiça,

é esgotamento.

A ansiedade não aparece nos exames de rotina,

mas deixa marcas no corpo

como se tivesse passado com as mãos pesadas.

E eu fico aqui,

tentando reaprender a respirar devagar,

a comer em paz,

a confiar que nem tudo precisa ser resolvido hoje.

Porque o corpo não foi feito

para viver em guerra todos os dias.

Ele só quer descanso.

E um pouco de cuidado

que não venha acompanhado de pressa.