MAISA NALAPE

Sobreviver

Viver com um narcisista

é aprender a respirar baixo,

como quem mora ao lado de um vulcão

e chama isso de lar.

 

É medir sílabas,

pisar em ovos invisíveis,

decorar o mapa das explosões

para tentar evitá-las.

 

É engolir incêndios

com um copo d’água na mão.

 

Até que um dia

o corpo cansa de ser silêncio

e a voz sai —

não como grito,

mas como último ar.

 

E então o mundo vira.

 

Quem suportou vira acusada.

Quem sangrou vira exagero.

Quem reagiu vira louca.

 

E a culpa veste teu nome

como se sempre tivesse sido teu.

 

Mas não é.

 

Loucura é viver em guerra

e chamar isso de amor.

Loucura é apagar-se inteira

para caber no espelho de outro.

 

Tu não és o descontrole.

Tu és o limite que chegou.

E limite não é histeria —

é sobrevivência aprendendo

a existir.