O mundo anda barulhento demais.
Notificações piscam como semáforos impacientes,
ônibus passam levando rostos cansados,
e eu atravesso a rua
como quem atravessa um pensamento difícil.
Lá fora, tudo exige pressa.
Resultados. Respostas.
Sorrisos prontos para fotografia.
Mas quando fecho a porta do apartamento
— esse pequeno retângulo de silêncio —
o caos tira os sapatos.
Amar você
é desligar o wi-fi da angústia por alguns minutos.
É colocar água para ferver
e observar, juntos,
o vapor subir sem discutir política, futuro ou fracassos.
Seu abraço
não resolve o mundo,
mas desacelera o meu.
Há boletos sobre a mesa,
há prazos me olhando torto,
há um planeta inteiro em crise.
E ainda assim,
seu riso na cozinha
faz parecer que a vida
não é só um relatório em atraso.
Gosto do jeito que você me escuta
como se meu cansaço fosse importante.
Como se minhas dúvidas
não fossem exagero,
mas humanidade.
Talvez amar seja isso:
um cobertor jogado sobre os ombros
enquanto o noticiário insiste em gritar.
Não é fuga.
É resistência silenciosa.
Dois corpos dividindo o sofá
como quem divide trincheira,
dois corações aprendendo
que carinho também é ato político
num tempo em que quase tudo é descartável.
Se o mundo é complicado,
que seja.
Aqui dentro,
entre a louça por lavar
e o café que esfria devagar,
eu encontro abrigo.
E por alguns instantes,
o mundo pode esperar —
porque amar você
é a maneira mais simples
que encontrei
de continuar vivo.