Sezar Kosta

O AMOR NO APARTAMENTO 403

O mundo anda barulhento demais.

Notificações piscam como semáforos impacientes,

ônibus passam levando rostos cansados,

e eu atravesso a rua

como quem atravessa um pensamento difícil.

 

Lá fora, tudo exige pressa.

Resultados. Respostas.

Sorrisos prontos para fotografia.

 

Mas quando fecho a porta do apartamento

— esse pequeno retângulo de silêncio —

o caos tira os sapatos.

 

Amar você

é desligar o wi-fi da angústia por alguns minutos.

É colocar água para ferver

e observar, juntos,

o vapor subir sem discutir política, futuro ou fracassos.

 

Seu abraço

não resolve o mundo,

mas desacelera o meu.

 

Há boletos sobre a mesa,

há prazos me olhando torto,

há um planeta inteiro em crise.

E ainda assim,

seu riso na cozinha

faz parecer que a vida

não é só um relatório em atraso.

 

Gosto do jeito que você me escuta

como se meu cansaço fosse importante.

Como se minhas dúvidas

não fossem exagero,

mas humanidade.

 

Talvez amar seja isso:

um cobertor jogado sobre os ombros

enquanto o noticiário insiste em gritar.

 

Não é fuga.

É resistência silenciosa.

 

Dois corpos dividindo o sofá

como quem divide trincheira,

dois corações aprendendo

que carinho também é ato político

num tempo em que quase tudo é descartável.

 

Se o mundo é complicado,

que seja.

 

Aqui dentro,

entre a louça por lavar

e o café que esfria devagar,

eu encontro abrigo.

 

E por alguns instantes,

o mundo pode esperar —

porque amar você

é a maneira mais simples

que encontrei

de continuar vivo.