Joaquim Saial

A ambulância

 

A ambulância cortava, rápida, o negrume da auto-estrada.
Não piava, mas ia de luzes acesas, dentro e fora de si.

A auto-estrada estava deserta; a noite, sem estrelas.
E a ambulância seguia, célere, naquele quente Agosto.

Dentro dela, o condutor, dois enfermeiros e o doente,
operário caído de segundo andar em obra de prédio.

E lá seguia a ambulância, com os três homens e o doente,
preso à maca, com correias, por causa do balanço.

A traiçoeira mancha de óleo na estrada surgiu do nada,
a derrapagem foi inevitável e o carro caiu na ribanceira.

E lá continuava o doente a precisar de hospital,
e lá estavam os enfermeiros, agora mortos
e o condutor, também falecido.
 
Depois, foi o helicóptero a viatura.
O doente salvou-se
e, já curado,
achou que era um homem de sorte.

Os familiares e os amigos, também.

 

Do livro \"Poemas para a hora de Ponta\", ed. Cordel de Prata, Lisboa, 2019