Gleidson Silva santos

Quase

Eles se gostam como quem divide um cigarro na janela
sabendo que faz mal
mas ainda assim encostando o ombro.

Não é falta de coragem.
É excesso de mundo.

Tem regra, tem distância,
tem aquele “não dá” dito com a voz mais mentirosa do planeta.
E eles concordam, claro.
Dois adultos responsáveis
fazendo a coisa certa
com a maturidade emocional de quem evita olhar dois segundos a mais.

Só que o problema mora nesses dois segundos.

Eles falam de outras pessoas
como se estivessem comentando o clima.
“Ah, tô saindo com alguém.”
“Que bom.”
Que bom nada.

O toque é sempre acidental demais
pra ser acidente.
A risada dura meio segundo além do normal.
E quando o silêncio vem,
ele não é vazio 
é pesado, cheio de coisa não dita,
quase pedindo pra ser imprudente.

Mas não pode.

Não pode porque alguém se machuca.
Não pode porque a vida já é complicada.
Não pode porque a logística, o timing, o passado,
a porra toda.

Então eles fazem o que qualquer pessoa sensata faz:
ficam perto.

Perto o suficiente pra doer.
Longe o suficiente pra negar.

E seguem assim,
dois especialistas em autocontrole,
dois atletas olímpicos do “melhor deixar quieto”,
dois apaixonados exemplares
que nunca atravessam a linha.

Só desenham ela no chão
com o pé
e fingem que não estão morrendo de vontade
de apagar.