Mirela

Entre promessas e desaparecimentos

Entre Promessas e Desaparecimentos


Ela prometia mudar.
Prometia com os olhos cheios d’água
e a voz embargada de culpa.


Dizia que dessa vez era diferente.
Que agora seria mãe.
Que agora ficaria.
E eu acreditava.
Sempre acreditava.


Arrumava o coração como quem arruma a casa
pra receber visita importante.
Guardava as mágoas.
Varri a raiva pra debaixo do tapete.
Só pra ter ela de volta.


Ela aparecia com abraços demorados,
com carinho concentrado,
com aquele amor urgente
de quem sabe que já falhou demais.


E por alguns dias
eu tinha mãe.
Tinha risada na cozinha.
Tinha conselho.
Tinha presença.


Mas a promessa tinha prazo curto.


E, de repente, os olhos dela ficavam distantes outra vez.
A casa voltava a ficar silenciosa.
E eu aprendia, de novo,
a não perguntar quando ela iria sumir.


Ela sempre aparecia.
E sempre sumia.
E cada ida levava um pedaço meu
que eu tinha acabado de reconstruir.


Crescer assim
é viver em estado de espera.
É nunca desfazer a mala do abandono.
É aprender que amor, às vezes,
vem com prazo de validade.


Mas no meio das partidas eu fiquei.
Fiquei inteira do jeito que dava.
Fiquei forte por necessidade.
Fiquei adulta antes da hora.


Porque quando a mãe vai e volta
quem não pode ir embora
é a filha.


E eu aprendi
a não desaparecer de mim.