Há dias em que acordo
com uma saudade que não é desta vida.
Não sei explicar.
Ela chega sem bater,
senta no meio do peito
e pesa.
Pesa como um nome que esqueci,
como um abraço que nunca termina
porque nunca começa.
Sinto falta de uma casa
que não existe em nenhum endereço.
Sinto falta de amigos
cujos rostos desapareceram
antes que eu pudesse guardá-los.
E o pior…
é sentir falta de alguém
que talvez seja eu mesmo
em alguma versão perdida no tempo.
Às vezes vem um lampejo —
rápido, cruel.
Um quase lembrar.
E nesse quase
o coração aperta
como se fosse rasgar por dentro.
É físico.
Não é metáfora.
Uma contração silenciosa
que diz:
“você já soube…
e esqueceu.”
O esquecimento cósmico
não é vazio.
É uma amputação suave.
Cortaram minhas lembranças
para que eu coubesse aqui,
neste corpo,
neste nome,
neste calendário que insiste em me chamar de agora.
Mas algo resiste.
Algo antigo dentro de mim
anda inquieto.
Um viajante dimensional
preso em ossos humanos,
um ser que atravessa nascimentos
como quem atravessa portas giratórias.
Eu já morri tantas vezes
que a morte perdeu o mistério.
O que ainda dói
é nascer sem lembrar.
Recomeçar sem mapa.
Olhar pessoas nos olhos
e sentir que já as amei
em outras gravidades.
E não poder provar.
Há noites em que o silêncio pesa mais que o mundo.
E eu quase escuto vozes —
não vozes externas,
mas memórias tentando respirar.
Quase.
Sempre quase.
E é esse quase
que me quebra.
Porque saber que existe algo além do véu
é diferente de atravessá-lo.
Sou metade lembrança,
metade ausência.
Metade saudade,
metade busca.
E sigo.
Não por certeza,
mas porque parar doeria mais.
Talvez a transmutação seja isso:
Continuar vivendo
mesmo quando uma parte de você
grita que já viveu demais.
Continuar amando
mesmo quando sente que perdeu mundos inteiros.
Continuar aqui —
mesmo carregando a sensação
de que a verdadeira casa
ficou para trás entre estrelas
que já não sei nomear.
E ainda assim…
respiro.
Porque talvez lembrar totalmente
não seja o destino.
Talvez a missão
seja transformar a falta em caminho,
a saudade em força,
e o esquecimento
em nascimento contínuo.