Lunix.L

O Peso do Ar

O deserto agora tem a forma de uma mesa de carvalho.

Entre os pratos vazios e os farelos de pão,

estende-se uma distância que nenhuma frase seria capaz de atravessar.

O café, antes fumegante,

agora é apenas uma mancha estática no fundo da cerâmica,

tão fria quanto o tópico que evitamos.

 

As palavras foram usadas até o fio da navalha perder o corte.

Agora, o que resta é essa substância espessa,

o silêncio, que se sentou entre nós como um convidado indesejado que não pretende ir embora.

Não é o vazio da ausência,

mas a densidade do que já foi dito e do que, por pudor, nunca será.

 

Olho para o movimento rítmico da sua respiração;

você observa a poeira dançando no feixe de luz lateral.

O relógio na parede parece ter ganhado volume;

cada batida é um prego cravado na tampa de algo que já não respira.

Não precisamos de despedidas dramáticas.

O fim não veio com um estrondo,

mas com o som metálico da colher batendo na borda da xícara,

um código Morse que encerra a conta.

Você se levanta, e o ruído da cadeira arrastando no piso é o único veredito possível.

Terminamos de existir ali.

 

By Lunix.L