Sezar Kosta

O HOMEM QUE FUI

Eu me lembro do tempo

em que acreditava que o mundo

começava nas minhas mãos.

 

Eu acordava cedo,

abria a janela como quem rasga uma tela em branco

e decidia a cor do dia.

Se o céu estava cinza,

eu o pintava por dentro.

Inventava verões na chuva,

acendia sóis no peito

com a imprudência feliz

de quem nunca perdeu nada.

 

Construí pontes com abraços,

castelos com promessas sussurradas na madrugada.

Havia música no som dos passos dela pela casa,

havia ouro no vapor do café,

havia eternidade na maneira como nossos dedos

se entrelaçavam sobre a mesa.

 

Eu acreditava que bastava querer

para que o desenho permanecesse intacto.

 

Mas o tempo —

esse artista invisível —

passou água sobre minhas certezas.

 

Vi cores escorrerem pelas bordas dos dias.

Projetos se desfizeram como tinta diluída.

Rostos antes nítidos

tornaram-se lembranças suaves,

como fotografias guardadas ao fundo de uma gaveta.

 

No início, lutei.

Tentei proteger cada traço,

cobrir o papel com as mãos,

impedir que o orvalho da manhã

tocasse o que eu havia criado.

 

Depois compreendi.

 

Há beleza na cor que escorre.

Há verdade na sombra que cresce ao entardecer.

O que importa não é a permanência do quadro,

mas a intensidade do gesto.

 

Hoje caminho mais devagar.

Quando amo, amo inteiro.

Quando abraço, deixo que meus braços saibam

que aquele instante é único.

Quando sonho, entrego-me sem reservas,

mesmo sabendo que o vento virá.

 

Aprendi que viver

não é conservar a pintura perfeita,

mas molhar os pincéis na própria alma

e tocar o mundo com coragem.

 

Se um dia tudo voltar ao silêncio —

e sei que voltará —

quero que reste ao menos

a memória do meu traço firme,

da minha entrega sem cálculo,

do homem que fui

ao ousar colorir o que não se via.

 

Porque, no fim,

não levamos o quadro.

 

Levamos o amor

com que o pintamos.