Eu me lembro do tempo
em que acreditava que o mundo
começava nas minhas mãos.
Eu acordava cedo,
abria a janela como quem rasga uma tela em branco
e decidia a cor do dia.
Se o céu estava cinza,
eu o pintava por dentro.
Inventava verões na chuva,
acendia sóis no peito
com a imprudência feliz
de quem nunca perdeu nada.
Construí pontes com abraços,
castelos com promessas sussurradas na madrugada.
Havia música no som dos passos dela pela casa,
havia ouro no vapor do café,
havia eternidade na maneira como nossos dedos
se entrelaçavam sobre a mesa.
Eu acreditava que bastava querer
para que o desenho permanecesse intacto.
Mas o tempo —
esse artista invisível —
passou água sobre minhas certezas.
Vi cores escorrerem pelas bordas dos dias.
Projetos se desfizeram como tinta diluída.
Rostos antes nítidos
tornaram-se lembranças suaves,
como fotografias guardadas ao fundo de uma gaveta.
No início, lutei.
Tentei proteger cada traço,
cobrir o papel com as mãos,
impedir que o orvalho da manhã
tocasse o que eu havia criado.
Depois compreendi.
Há beleza na cor que escorre.
Há verdade na sombra que cresce ao entardecer.
O que importa não é a permanência do quadro,
mas a intensidade do gesto.
Hoje caminho mais devagar.
Quando amo, amo inteiro.
Quando abraço, deixo que meus braços saibam
que aquele instante é único.
Quando sonho, entrego-me sem reservas,
mesmo sabendo que o vento virá.
Aprendi que viver
não é conservar a pintura perfeita,
mas molhar os pincéis na própria alma
e tocar o mundo com coragem.
Se um dia tudo voltar ao silêncio —
e sei que voltará —
quero que reste ao menos
a memória do meu traço firme,
da minha entrega sem cálculo,
do homem que fui
ao ousar colorir o que não se via.
Porque, no fim,
não levamos o quadro.
Levamos o amor
com que o pintamos.