O REFLEXO
Encaro o vidro e o vidro me devolve um estranho com os meus olhos.
Quem é esse que me imita, mas parece chegar sempre um segundo atrasado?
Copia meus movimentos com precisão, mas parece demasiado forçado.
Sorri de volta, mas é diferente do meu sorriso.
Tenho medo que, ao piscar, a imagem no espelho decida não fechar os olhos.
Olho fixamente para aquela imagem distorcida, com medo.
O meu reflexo é uma carta enviada a um destinatário que eu já não reconheço
A carta começa com um cumprimento demasiado familiar para não conhecer só que demasiado bruto para meu ser.
Tenho medo de que o espelho seja a única testemunha silenciosa das realidades que eu tento calar.
Escondo-me da minha imagem com o mesmo medo com que se esconde um amor que não se quer perder,
Quebro o vidro sem ligar aos sete anos de azar,
Pois azar tenho eu, em ver aquele borrão que chamam de reflexo.
Não me olhes assim, com essa fome de quem quer roubar o meu ar.
Eu posso errar o passo, tu estás condenado a imitar a minha queda.
Não invejo as tuas capacidades, prefiro a minha dor real do que tua perfeição de vidro.
O teu ódio brilha no fundo das pupilas, mas só se eu decidir olhar.
A tua indignação de vidro não me fere, porque eu escolho quando te dou vida.
Sei que me detestas, mas és condenado a sorrir sempre que eu decidir esconder a minha dor.
Sei que odeias meu jeito de chorar, mas tens de imitar, eu que decido afinal.
Podes ter uma luz forte, mas eu quem acendo e desligo.
Digo que mando em ti, mas o suor nas minhas mãos confessa que tenho medo do que escondes.
Sabes meus piores segredos, e sei que não há medo de os dizer.
O meu coração corre para longe de ti, enquanto os meus pés teimam em ficar no mesmo lugar.
Orgulhosa demais para correr de um simples espelho.
Dizem que é \'só vidro\', como se o abismo deixasse de ser fundo por ter uma moldura.
Falam que não há do que temer, mas isso não me impede de o ver
É fácil chamar-lhe reflexo quando não é a vossa alma que está a ser despida por um estranho.
Se sou louca por temer o que me encara, vocês são cegos por confiar numa imagem que vos imita.
O seu olhar implora: \'Deixa-me respirar o teu ar, e tu podes ficar aqui, imortal e imóvel\'.
Temo que um dia, num piscar de olhos mais longo, ele saia e eu fique a decorar a parede.
Ele já ensaia os meus gestos com demasiada perfeição, como quem estuda o papel de um assassino.
Ele pede-me a chave da minha vida em troca do silêncio eterno da moldura.
Assusta-me o pensamento de que só me movo porque algo, do outro lado, decidiu dar o primeiro passo.
Olho para as minhas mãos e vejo-as demasiado perfeitas, demasiado imóveis, demasiado... falsas.
Às vezes sinto um atraso: o meu braço levanta, mas parece que fui eu que segui o gesto dele, e não o contrário.
E quando apagas a luz do quarto, eu finalmente posso descansar de fingir que existo.