Olho para o relógio:
60 segundos.
60 segundos para gravar teus olhos
como quem memoriza um crime
antes que ele aconteça.
Observo tua boca,
tão perfeita na forma,
tão precisa no erro.
Ela não falha:
mente com convicção.
E tuas mãos, firmes
não por amor,
mas por hábito
repousam ao lado do corpo,
incapazes de me escolher.
Pergunto-me:
se soubesses
que estes são nossos últimos segundos,
o que faria?
Promessas recicladas?
Lágrimas ensaiadas?
Um pedido tardio
para que eu fique
onde nunca fui prioridade?
3, 2, 1.
Nosso tempo acabou.
Viro-me em outra direção.
Enquanto isso, você , exaltado ,
tenta negociar com o relógio,
como se o tempo
obedecesse
a quem sempre tentou dobrar tudo
menos a própria verdade.