Há no peito humano um chamado sutil, Que a dor do outro ecoa, tão forte, tão vil. É a compaixão que brota, um rio a correr, Que busca acalmar, que anseia acolher.
Estender a mão, o olhar a entender, A lágrima seca, o nó a doer. Um bálsamo leve para o que se desfaz, A chama que acende a mais pura das paz.
Mas há um espelho, por vezes nublado, Onde a própria verdade se encontra encoberta. É o autoengano que, astuto e calado, Distorce a intenção, a intenção que é incerta.
Será que no outro busco um refúgio? Ou na dor alheia, meu próprio artifício? Para não ver a sombra, o traço, o vestígio, De um medo profundo, de um velho suplício?
Compaixão verdadeira não foge de si, Nem usa o auxílio para não se sentir. Ela nasce de um solo limpo e real, Que aceita a sua própria luz e o seu mal.
É abraçar a dor, sim, de quem está perto, Mas com o próprio ser em terreno descoberto. Sem véus, sem desculpas, sem falsos enredos, A ver a si mesmo, seus íntimos segredos.
Que a força do amar seja pura, sem dolo, E o espelho da alma, sem mancha ou rótulo. Compaixão sem engano, um farol a guiar, Onde a verdade liberta para amar e doar.